Ema Ribeiro – Ó! Galeria: O futuro é o online e temos de nos adaptar e aceitar

entrevista

Por: Beatriz Passos • Fotografia: Ó! Galeria

À data da entrevista com Ema Ribeiro, fundadora da Ó! Galeria — que se tem dedicado à ilustração com lojas no Porto e em Lisboa — ainda não tinha sido comunicado o fecho do espaço na capital. A pandemia afectou todos de diferentes formas e infelizmente o sector da cultura é dos mais afectados neste panorama.


Tendo tido a fotografia como paixão (ESAP) e a cerâmica como base (Escola Artística Soares dos Reis), Ema Ribeiro cria a Ó! no Porto em 2009 para dar uma casa a “amigos e colegas sem forma digna de expôr ilustração”. Actualmente, a galeria tem representados trabalhos de ilustradorxs nacionais e internacionais, como Clara Não, Yara Kono, Agathe Sorlet, Bina Tangerina ou Marcos Martos.


Como, segundo Ema, “o futuro é o online e temos de nos adaptar e aceitar esse facto”, a Ó! colocou-se em linha com o virtual, ao oferecer várias opções neste formato durante o período de confinamento. Entre as quais, pode nomear-se ter entregue as “chaves virtuais” das suas redes sociais a cada ilustrador durante 3 dias, havendo uma apresentação e visita guiada pelos seus trabalhos através de publicações, tendo como plataforma o instagram — esta iniciativa da galeria continua até dia 31 de Maio. Outra forma de apoio aos artistas, mesmo tendo sempre a distância como condição, foi a criação de um Gift Card que pode ser oferecido por quem quiser a quem quiser. Neste caso, as compras são inevitavelmente feitas através da loja online. Também foi criada a “CURATED BY:”, uma iniciativa que leva convidados a escolher ilustrações do site e criar uma exposição nas stories do instagram da galeria. A primeira convidada foi a Capicua e deu o nome “Mulheres” à exposição que se deu no dia 9 de Abril.


Para além dos projectos dedicados a este período particular, a Ó! organiza exposições temporárias, a par com todas as ilustrações presentes em loja que se encontram para venda com preços acessíveis.


O fecho da loja lisboeta é a demonstração clara da dificuldade de subsistência de projectos culturais em período de pandemia. Sem rede de segurança, as artes passam para segundo plano ao nível económico e inevitavelmente, há necessidade de fechar portas. Porque a galeria foi fundada no norte do país, e estando localizada no mítico bairro artístico, na Rua Miguel Bombarda no Porto (palavras da fundadora), foi possível manter uma dinâmica mais forte.


O futuro vê-se mais brilhante, com o sol reflectido no vidrado das peças cerâmicas da recente loja dedicada a esta expressão artística milenar, com workshops e um espaço de co-work. Enquanto ainda é aconselhado estar em casa, já existe uma página dedicada à Ó! Cerâmica no instagram.

Como fundadora da Ó!, fala-nos um pouco sobre o teu background. Qual o caminho que percorreste até chegar à inauguração da primeira loja? O que levou à sua criação?

• Quando andei, no secundário, na Escola Soares dos Reis, comecei com o curso técnico-profissional de cerâmica. Na Faculdade de Belas Artes do Porto, estive em Artes Plásticas – Escultura, e depois na ESAP em fotografia. A fotografia foi a área em que me mantive durante alguns anos, completamente apaixonada, e abri a minha primeira galeria, a Lab.65, dedicada exclusivamente à fotografia em 2006. Passou um ano e fechei com o coração destroçado. Não sendo uma pessoa conhecida no meio, o projecto não vingou. A convite da FNAC reestruturei o projecto da Lab.65 e tornei-o menos elitista, ou seja, criei uma plataforma onde, ao ter séries mais extensas de fotografias de autores portugueses, conseguia ter valores bastante atractivos que possibilitavam a compra de fotografia por qualquer um. Passado dois anos, terminei o projecto que se sediou no CCbombarda na Rua Miguel Bombarda no Porto. Ao mesmo tempo iniciei a Ó! em 2009, um teste num espaço super interessante chamado Bidonville, também no CCB. A ideia de juntar ilustração, objectos de autor e desenho surge pela falta de espaços do género acessíveis ao público. Na altura a Dama Aflita era o único projecto de ilustração aberto. Amigos e colegas sem forma digna de expôr ilustração foi sem dúvida um dos principais motivos para que a Ó! nascesse.

Porquê Ó! Galeria? De onde surge este nome?

• Ó! é uma expressão de admiração, de espanto que eu uso com frequência. A ilustração faz-me dizer muitos Ó!’s 🙂

Qual é a adesão dos artistas em relação à galeria? Recebem propostas diariamente ou é a própria galeria que vai à procura de novos artistas para representar?

• Recebemos propostas diárias e constantes. Infelizmente não temos espaço para acolher mais ilustradores ou ilustrações. A maior parte dos ilustradores que fazem parte neste momento da Ó! foi convidada por mim.

Qual a tua opinião em relação aos formatos feira e galeria? Consideras que a feira é um complemento para a apresentação em espaço de galeria? A galeria complementa a feira?

• A galeria dá ao ilustrador oportunidade de mostrar o trabalho de uma forma dignificante e cria a oportunidade de ter quase como um portfólio em espaço aberto para um público bastante abrangente. O lado comercial também é certamente importante porque a promoção dos trabalhos dos ilustradores é feita em contínuo no espaço físico e em todas as plataformas virtuais (redes sociais, site, mailing list). Uma feira penso que complementa os rendimentos do ilustrador e dá-lhe oportunidade de se apresentar ao público directamente. Alguns ilustradores não se sentem à vontade para fazer feiras, ou já não pensam nesse formato; outros têm muito prazer em contactar directamente com o público ou simplesmente precisam de aumentar os rendimentos.

Sendo a ilustração uma das expressões que, por vezes, fica um pouco à margem relativamente às outras, como achas que será o seu futuro daqui para a frente? 

• Não sinto que esteja à margem, até pelo contrário. Nesta altura a ilustração está muito próxima do público porque são os ilustradores que estão a chegar através das redes sociais às casas de muitos. Com actividades promovidas em conjunto, com workshops, com animações… nunca se viu tanta actividade nas redes e tanta ilustração a mostrar o que vai na alma dos próprios autores e do público. Acho que o futuro sem dúvida é o online e temos de nos adaptar e aceitar esse facto.

Sabemos que vem aí uma Ó! dedicada à cerâmica. O que nos podes adiantar em relação a este conceito de loja? 

• A ideia de ter uma galeria de cerâmica vem desde há algum tempo. À medida que os anos foram passando, projectos de cerâmica começaram a aparecer entre os ilustradores de formas incrivelmente originais. Uma nova vaga refrescante dentro da cerâmica artística, sem dúvida que me motivou a querer, mais uma vez, criar uma espaço que dignificasse esta área. A galeria vai ter uma parte expositiva e outra de loja, tal como na Ó! ilustração, completando-se com os workshops e co-work.

A Ó! Lisboa vive muito do turismo, de todas as pessoas que pela porta passam e ficam curiosas acerca do que está dentro das duas portas de madeira — no caso de Lisboa. Como foi lidar com a progressiva falta de público conforme o avanço da situação de pandemia em Portugal e, posteriormente, o fecho das portas? E o caso do Porto?

• A Ó! Lisboa fechou agora no final de Abril em consequência desta crise. Há que ser pragmático e tomar as decisões mais duras atempadamente para que não vá tudo por água abaixo.

Foram 5 anos de luta constante para manter as portas abertas, em que na realidade  só no ano passado pudemos suspirar de alívio. Entretanto, já neste início de ano, sentiu-se uma quebra e com a pandemia foi para nós o tempo de dizer adeus à capital e continuar a luta cá em cima, na casa mãe. Lisboa é uma cidade dura para um negócio. O Porto é uma cidade onde temos a vantagem de estar situados no bairro das artes. As pessoas que gostam de arte no geral sabem onde podem ir para ver exposições, explorar o quarteirão cheio de projectos muito interessantes. Torna tudo mais fácil. Acredito que no Porto, por mais difícil que seja, sendo a nossa casa, é mais fácil manter. Mas claro que se as pessoas não comprarem, a Ó! fecha também as portas por cá.