Festival Emergente: “uma das nossas missões é pôr o pessoal no palco a tocar”

entrevista

Texto: Beatriz Passos / Entrevista: Beatriz Passos e Vasco Completo • Fotografia: Ana Pereira

Emergiu numa uma noite de Santo António em 2018. Correu tão bem que no ano seguinte veio como Festival Emergente, um evento mais sério e com mais compromisso. Na sua primeira edição trouxe nomes como Pedro Mafama, Filipe Sambado e os Acompanhantes de Luxo, ou Cave Story – hoje já menos emergentes por parte do público, como sabemos.

Este ano, continuando fiel ao nome, no dia 3 de Dezembro, o Festival Emergente traz ao Capitólio artistas a aparecer na música portuguesa, com o espírito de missão de apoio ao que de novo se tem feito. Prezando a democratização de acesso ao palco – nestes tempos atípicos em que as oportunidades se vêem mais limitadas -, esta segunda edição chegou-nos ainda em Agosto em formato de open call (que terminou dia 5 de Outubro) do qual foram escolhidos pelo público, através de votação, dois artistas: Lana Gasparøtti e Cri The Coeur. A estes, juntaram-se Cíntia, Rui Rosa e Fugue., como convidados do Emergente, e Meta, Hause Plants e Dream People, seleccionados pelo júri do festival, composto este por Francisco Conde (Camaleão Associação Cultural), Tiago Castro (Rádio SBSR), João Araújo (Festival Rodellus), Carlos Gomes (Festival Emergente) e Vitor Belanciano (Jornal Público).

Mas o papel do público não acaba aqui: todos os artistas, exceptuando os três convidados, estão, no decorrer do festival, sob votação para o prémio de Melhor Concerto, ganhando a oportunidade de tocar no Festival Emergente e no Festival Rodellus, em Braga, ambos no próximo ano. Já o melhor Projecto Musical, eleito por este conjunto de jurados, ganha a possibilidade de gravar um álbum ou EP nos Estúdios Camaleão.

A quase um mês do Emergente ganhar vida dentro de portas do Capitólio, entrevistámos Carlos Gomes, director artístico e de produção do festival, que nos falou sobre as características desta necessária adaptação e nova abordagem do evento, a dinâmica de votação do público, e o panorama da música em Portugal.

LANA GASPARØTTI

CRI THE COEUR

No ano passado o festival funcionou sem este open call, foi só o Festival Emergente. Foi uma dinâmica um pouco diferente. Como foi a adaptação do festival da vossa parte para este ano?

• A ideia do festival no ano passado que supostamente era para ter continuado este ano – mas de certa forma até estamos muito contentes que isso não tenha acontecido porque estamos muito entusiasmados com esta ideia do open call – foi, de certa forma, na sua primeira edição constituir uma espécie de linhagem da nova geração da música portuguesa. Se tu atentares ao line-up, é uma coisa que de facto me orgulha bastante porque estão lá nomes que hoje em dia já não são assim tão emergentes quanto isso: o Filipe Sambado, o Pedro Mafama, Time for T, Cave Story. Depois estavam lá outros também completamente desconhecidos na altura, Ossos d’Ouvido, e mais uns quantos. Palmers, também, estou a lembrar-me. Isso foi muito interessante porque eu acho que se sentiu muito isso. Quer os próprios músicos, quer o público que esteve presente, acho que houve muito bom ambiente por volta dessa ideia que estava ali de facto uma representação possível (evidentemente podiam ser muitas outras) dessa linhagem da nova música portuguesa. Desde os mais emergentes aos menos emergentes, digamos assim. Essa foi a ideia do ano passado. Este ano isso, por um lado, não era possível porque os recursos financeiros eram muito mais reduzidos do que aqueles que tínhamos no ano passado, e, por outro lado nós também… Eu sei que é um pouco estúpido dizer isto desta forma, mas a verdade é que todos nós, perante certas dificuldades que temos na vida, acabamos por reinventar muita coisa. E assim aconteceu também, ou seja, nós percebemos que aquilo que fizemos o ano passado, dar continuidade não era possível este ano e, perante a possibilidade de cancelar o festival, dissemos: não, não vamos cancelar nada. Se uma das nossas missões é pôr o pessoal no palco a tocar, a fazer aquilo que mais gosta, pensámos que era isso também que tínhamos de fazer. Mas o problema é que nós, Emergente, temos um pouco esta exigência connosco próprios que é dar as melhores condições possíveis aos músicos. Achamos muito bonita, muito interessante, este ideia de… A malta nova não salta logo para um palco grande, muito bom e com todas as possibilidades técnicas. Isso porquê? Porque músicos com talento, músicos bons de facto, perante boas condições técnicas acabam por exponenciar esse talento. É uma coisa que no ano passado também sentimos muito com os excelentes concertos de bandas que praticamente não conhecíamos ou que o público também não conhecia, e queremos repetir um bocadinho essa experiência porque acho que foi uma das experiências mais gratificantes. Isso não foi possível, pagarmos cachês às bandas que nos apetecesse convidar. Então pensámos abrir um open call que por um lado tivesse um cachê simbólico para todas as bandas que fossem lá tocar, para que tivessem as despesas pagas, um cachê do concerto, e que fosse também, de certa forma, uma oportunidade para ver o que é que a malta anda aí a fazer, sobretudo nesta altura – também tem esse interesse especial. Ficámos muito contentes porque tivemos 49 bandas a concurso. Agora estamos metidos numa carga de trabalhos porque para além dos dois que são votados pelo público, nós vamos ter de escolher outros 3 desses 49 por um grupo de elementos do júri e depois ainda vamos convidar outros 2 – não sei se exactamente desses 49, se outras 2 bandas que nós achemos que faz sentido estarem naquele line-up. É isso que vai acontecer este ano: 7 bandas realmente emergentes que saltam, por um lado, do open call para o palco e, por outro lado, por convite nosso ou 2 desses 49 que nós queiramos ir buscar porque achamos que merecem.

Nesse sentido, a linha identitária do festival, a sua impressão digital, só alterou um bocadinho a sua dinâmica, porque a ideia do artista emergente até vai mais ao encontro disso, não é?

• Completamente. Para te ser franco, eu acho que o carácter do festival saiu reforçado, não é por acaso que chamámos ao open call “super emergentes”. Há mesmo pessoal – e nós vimos isso nas bandas que nos chegaram – que está naquela fase de gravação do seu primeiro EP. Se forem tocar o seu primeiro EP no Emergente, acho que é uma experiência brutal.

Claro, para quem está a começar é uma experiência incrível.

• Claro, ainda para mais nesta altura. Depois por outro lado (não sei se tiveste oportunidade de dar uma olhadela pelo pessoal), temos ali dois ou três casos que não são propriamente emergentes no sentido da ideia, e também mesmo no sentido do seu percurso, mas também achámos que nesta altura estar a fechar a porta àqueles que tiveram a iniciativa e a vontade de nos explicar “olha, nós somos malta que não está propriamente dentro dos critérios de idade que vocês definiram, mas gostávamos muito de ir tocar ao Emergente” (risos). Nós achámos que, a esses que tiveram coragem de nos escrever e explicar a história deles, não podíamos fechar as portas. De certa forma, há ali realmente alguma incoerência, mas também estamos um bocado cansados dessa história toda da coerência. Com algum controlo, estamos um bocadinho a lixar-nos para isso. A ideia de ter um regulamento foi para dar oportunidade àqueles que são verdadeiramente mais jovens e que têm menos oportunidades neste momento. Mas também achamos muito interessante, e de certa forma, enche-nos a alma e o coração, pensar que há uma banda no norte do país e que de repente vê o open call e “ih, gostávamos imenso de ir lá tocar”… “porra, temos mais que 35 anos, não podemos”… Eish, quer dizer…

Claro, é uma altura para abrir excepções de uma maneira positiva e não negativa.

• Sim. Eu pessoalmente, falei também com o pessoal, mas eu pessoalmente não tenho muita coragem para fazer essas coisas porque acho que sobretudo neste momento em que nós estamos a viver, se há coisa de que eu não quero fazer parte é de pôr limitações a pessoas.

Ainda bem, é bom sinal. Já falaste um bocadinho sobre isso, mas após o open call, existiu também alguma selecção da vossa parte ou todos os concorrentes que eram elegíveis participaram na escolha do público?

• Sim, na verdade, sim. E, mais uma vez, pelas mesmas razões. Eu diria que, se calhar, havia 3 ou 4 casos que até [deram] alguma dificuldade. Ou seja, nós de certa forma até contribuímos para que eles cumprissem os critérios de elegibilidade aconselhando, dialogando, às vezes também sendo um pouco mais exigentes com as coisas que estavam a enviar – mesmo em relação aos vídeos, por exemplo. Na verdade, sim, acabámos por aceitar todos porque a qualidade média é bastante boa, acho eu. E também, mais uma vez, apesar evidentemente de todos nós – quer o júri, quer organização do Emergente -, termos os nossos critérios estéticos e termos uma ideia do que é realmente bom e do que não é, acho que ter esse tipo de apreciação num open call não é a melhor das atitudes porque as pessoas podem evoluir, o seu trabalho pode evoluir e eu particularmente não me sinto muito à vontade com essa espécie de castração que infelizmente acontece muito por aí. Também é uma coisa das quais eu não quero fazer parte. A ideia aqui é ajudarmos, é contribuirmos de facto para que as pessoas possam evoluir no seu trabalho e, para isso, trabalhamos nós também para abrir essa possibilidade. Foi isso que fizemos, com muito gosto.

Num mundo já com tantas negas, estás a tentar trazer um lado mais positivo, não é?

• Eu acho que às vezes as bandas até ficavam surpreendidas com a atitude (risos) porque não estavam à espera. Nós enviávamos respostas “ó malta, há que melhorar este vídeo” (gargalhadas), “Porque nós até conseguimos entender, mas não se esqueçam que isto é para ir a votação” (risos). Coisas assim do tipo. Nós tivemos um bocado esta atitude para o positivo em relação ao material que ia chegando. Quando sentíamos que era importante, vá. Mas também são casos pontuais, 3 ou 4 situações.

Noutro assunto, o público continua a ter também um grande peso no decorrer do festival com a eleição do melhor concerto super Emergente, por exemplo. Como irá funcionar essa dinâmica no próprio dia?

• Isso foi uma coisa em que pensámos porque, dada esta situação em que nos encontramos, estamos a correr sérios riscos de não ter público (risos). Enfim, lá estaremos de qualquer das formas, nós e as bandas. Estamos, de facto, também a montar a possibilidade da edição live streaming como foi anunciado, com muito risco da nossa parte, mas acho que efectivamente vai ser possível. Como é que vai ser a dinâmica? Nós temos dois prémios neste concurso. Temos o prémio para o melhor concerto, que vai ser atribuído à melhor banda das 7 que actuarem. Menos as 2 convidadas, se houver 2 bandas convidadas que foram extra open call, essas duas não poderão ser votadas. Se forem as 7 do open call, sim, todas poderão ser votadas. Nessa altura será um sistema de votação que nós definimos, em que todos votam, ou seja, vota o público, vota o júri e podem votar as pessoas que estão em casa ou em qualquer lugar, a ver o live streaming. Esse sistema de votação é um sistema de pontos. O 1º tem 5 pontos, o 2º tem 3, e o 3ª tem 1, de forma a que com toda a pontuação cruzada, não haja nenhum dos factores de pontuação que seja determinante: nem a votação do júri vai ser determinante, nem a votação do público. Outra situação é o melhor projecto musical e esse, sim, é só escolhido pelo júri. Requer um critério mais selectivo, ouvir os outros temas das bandas. Nós pedimos, para além do vídeo que está no site do Festival Emergente para votação, mais 3 a 5 temas. Por um lado para garantimos que as bandas tinham realmente temas para tocar e por outro lado para nós próprios podermos ter uma percepção mais abrangente do que é o seu universo musical e podermos perceber qual o interesse que está ali como estético, como também o know-how dos instrumentos, da capacidade de compor. Isso sim, vai ser um critério mais selectivo. E depois, essa banda ganha a possibilidade de gravar um EP ou um álbum, conforme o momento do seu percurso, nos estúdios do Camaleão e o melhor concerto ao vivo estará para o ano também no palco do Emergente e no palco do Rodellus, que é um festival no norte do país em que o carácter do line-up é muito semelhante ao nosso, são bandas emergentes, embora eles já estejam num patamar mais à frente, ou mais abrangente, porque já têm muitas bandas internacionais. Nós temos muita admiração por essa malta porque já vão na 5ª edição. De facto, o festival é super bom, é super interessante, é super curtido. É gente boa e super curtida, mesmo, muito abertos. Estamos super contentes porque também não é uma coisa muito normal, haver parcerias entre festivais. Nós tivemos esta ideia, falámos uns com os outros e vai acontecer. Eles também são parte do júri: um dos elementos da organização do Rodellus, para puxar a brasa à sua sardinha, digamos, para dizerem “epá, não, mas eu gostava que esta banda viesse ao nosso festival” (risos).

Do que vimos das bandas, participam muito do território do país e íamos perguntar se existe a possibilidade de eventualmente realizar o festival fora de Lisboa ou haver algum tipo de evento que seria fora e, neste caso, essa parceria com o Rodellus já cobre um pouco essa…

• Exacto. O Rodellus já é a forma que nós encontrámos, quer nós quer eles, de concretizar isso de forma bastante rápida. Os dois festivais existem, portanto, em 2021 a banda que for eleita o melhor concerto poderá tocar nos dois. Em vez de teres só um gig, já tens dois. Uma coisa que também nos orgulha bastante em relação a este open call, é o que tu dizes: apareceu gente de todo o lado. Agora não tenho aqui a lista à minha frente, mas por acaso fi-la aqui há uns tempos [e temos muitas partes do país] representadas neste open call, o que é muito interessante, não foi aquela coisa normal de ser só bandas de Lisboa de todo o lado: no Alentejo, do Centro, do Norte, do Interior, do Litoral… Isso também é muito positivo, acho eu. É um bom sintoma, vá.

Claro que sim. Quanto menos bipolarizado – que é sempre aquela centralização entre Lisboa e Porto – melhor, quanto mais pudermos descentralizar estas coisas, tanto em termos de iniciativas de concertos e festivais, como de trazer também artistas mais de fora, ou pelo menos dar-lhes a palavra, é sempre… Só se tem a ganhar, na verdade.

• Felizmente é uma coisa que também já acontece muito em Portugal. Há sítios específicos em Portugal onde há muita actividade deste tipo de bandas, desta música emergente. Estou a lembrar-me Barcelos, Aveiro… São lugares onde tu realmente tens muitas, muitas bandas, algumas delas que já têm percursos feitos e sobejamente conhecidos porque já tocaram em N festivais pelo país fora e, muitas delas, também já fizeram percursos no estrangeiro. Isso felizmente já era uma realidade antes de aparecer isto tudo.

As bandas, os artistas que estão a lutar pela presença no Festival Emergente através do voto do público são maioritariamente masculinos. A que achas que se deve esta menor adesão de artistas femininas? Tens alguma opinião sobre isso?

• Tenho. Já o ano passado essa questão se colocou e, por um lado, acho que existe de facto um desequilíbrio entre a quantidade de bandas que existem, maioritariamente de pessoas do sexo masculino e de pessoas do sexo feminino. Isso é um dado à partida. A razão porque as bandas com miúdas não apareceram no open call: não sei, transcende-me. Não faço a menor ideias, mas de facto há, por exemplo, alguns casos neste open call muito interessantes. Também não vou agora estar aqui a citar nomes para não estar a dizer o que penso sobre essas situações. Nesta altura, que o open call ainda está aberto, acho que temos todos oportunidade, eu e o júri, de pensarmos sobre isso mais para a frente. Mas há de facto casos muito interessantes de mulheres neste open call. Eu penso que se calhar vamos conseguir encontrar um equilíbrio maior do que aquele que existe neste momento no universo de bandas do open call no line-up do festival. Pelo menos eu espero que sim e confesso que isso é uma das minhas preocupações. Acho que é muito importante nesta altura e no mundo em que nós vivemos para de facto dar oportunidades a todos de uma forma não discriminatória, seja qual for o tipo de discriminação: de sexo, de género, de raça, de proveniência, de origem cultural, social, o que seja. Estou-me nas tintas para isso. Se acontecer alguma coisa desse tipo, não é porque não estamos preocupados com isso, é porque não conseguimos fazer melhor. É uma pergunta muito pertinente e acho que faz todo o sentido e é como te digo, nós vamos tentar de facto, obviamente não pondo o critério da qualidade nunca atrás dos outros porque achamos que isso é uma coisa que tem de prevalecer, estamos a falar de música. O que é bom, é bom e o que não é, não é. Não é por uma pessoa ser mulher e outra ser homem que nós vamos passar a preferir ter lá uma pessoa do sexo feminino só para representar o sexo feminino. Não acho que isso faça muito sentido.

Claro, como disse, o ponto da questão estava longe de ser esse [do vosso critério] porque é mesmo uma coisa que é transversal na indústria da música.

• Infelizmente também creio que sim. Mas acho que essas perguntas são sempre importantes e acho que também é importante nós todos pensarmos sobre essas questões e termos respostas para elas efectivamente. Não escamotearmos a questão e não a contornarmos de uma forma qualquer que não tenha nenhuma espécie de critério, não é de todo a nossa intenção e a nossa ideia.

Onde vos leva este espírito de missão do festival e quais são os desejos futuros para o Emergente?

• Uma das coisas que temos a certeza é que queremos continuar com este open call porque, como te disse, estamos a achar que a experiência é muito gratificante para todos, para as bandas primeiro que tudo e para nós também que o estamos a organizar. Nós estamos verdadeiramente entusiasmados com isto e na altura em que criámos o festival, e depois a plataforma no site, até… Ficámos bastante excitados, devo dizer-te. Não estávamos à espera de um reacção tão boa. Não estávamos à espera também que a coisa desenvolvesse duma forma tão interessante. Eu já não vejo a votação há dois, três dias mas acho que já vamos para aí em seis mil votos, o que é fantástico. Ah, ainda fizemos uma coisa (se calhar mais louca, mas é para isso que aqui estamos), que foi encerrar a plataforma de votação e voltar a abri-la. Não sei se vocês sabem desse pormenor, mas nós abrimos a plataforma de votação e apercebemo-nos passado um dia e meio que aquilo já ia em cinco mil votos e que havia ali qualquer coisa que não era normal. Ou seja, a plataforma de votação era muito facilmente… era possível votares várias vezes e muito facilmente numa banda. Nós percebemos muito rapidamente. E tivemos a coragem – felizmente que a tivemos – de encerrar aquilo e durante dois, três dias encontrar uma solução que fosse, pelo menos, muito mais justa, que é o caso. Tu só podes votar registando o teu mail. Eventualmente podes criar contas de email, é um facto, e nós já vimos no mails… Nós temos acesso à mailing list e já vimos que isso aconteceu, mas aconteceu de uma forma que não é significativa na votação das bandas. Depois, na realidade também não podes imputar responsabilidade às bandas. Na verdade nunca sabes se aquilo foi uma ideia de alguém da banda ou se foi ideia de um amigo (risos). Portanto, temos de aceitar as imperfeições do sistema, e de facto as pessoas não se conseguirem conter e quererem tanto, tanto, tanto ir lá que se calhar uma vez ou outra fazem assim uma falcatruazita qualquer. Mas neste momento parece-nos que a votação é justa, estamos atentos a isso. Isto só para dizer que realmente o open call é uma coisa que nós queremos que continue. O que estamos aqui a perspectivar para o ano é que a coisa seja um pouco a mistura das duas coisas. Por um lado que tenhamos uma parte de line-up, se tivermos possibilidades económicas para isso e também se o mundo entretanto evoluir para qualquer coisa mais fluida do que está neste momento. A ideia será ter uma parte das bandas convidadas por nós e com critérios que tenham a ver com o line-up, que faz um determinado sentido, e depois ter o open call aberto também neste formato, com 5 bandas a saltarem directamente do open call para o palco. Depois temos de decidir se as misturamos, ou se fazemos um dia para o open call e um dia para as outras bandas… Não sei, há aqui muitas questões em aberto. Mas no fundo é isso, retomar o formato do ano passado: dois dias, voltarmos a esse formato com os pés na terra e não querermos já crescer de uma forma que não seja depois sustentável. É voltar ao formato do ano passado, dos dois dias, e ter qualquer coisa como 15, 16 bandas em palco.

A última pergunta que eu tenho é uma coisa que também já falámos no início, mas segundo uma entrevista que fizeram com a SBSR FM, a democratização das escolhas das bandas com os super emergentes deve-se à necessidade de adaptação à situação mundial actual, claro. Para fechar, como consideras as condições actuais de apoio à música em Portugal?

• Eu não sou, por razões que não cabem nesta entrevista, a melhor pessoa para falar disso de uma forma clara e com conhecimento de causa. A minha chegada à música foi uma chegada, apesar de tudo, relativamente recente e não sou profundamente conhecedor da situação mais no sentido profissional das dinâmicas da música em Portugal. Percebo que há muita dificuldade, claro, pelo contacto regular que tenho com os músicos e também como programador e organizador, percebo que essa dificuldade existe. Percebo que neste momento há um fosso muito maior entre aquilo que é o mainstream e aquilo que é este mercado, esta dinâmica das bandas emergente, acho que esse fosso se acentuou com esta situação. A mim custa-me muito perceber, e de certa forma revolto-me bastante quanto a isso, como é que continua a haver tanto dinheiro para nomes consagrados da música. Claro que todos nós precisamos de trabalhar, claro que o que os músicos gostam é de tocar, e mesmo que sejas um músico mainstream continuas a querer fazer isso e a fazer a tua vida porque é a tua vida, a tua vida é a música. Obviamente que quando tu estás em cima do palco é onde tu estás melhor, em princípio. Mas realmente fico um bocadinho revoltado porque percebo que há muito investimento… Tem muito a ver também com a capacidade desses artistas conseguirem captar um determinado público seguro que  rentabilize minimamente o investimento que tem de ser feito para os concertos poderem acontecer. Portanto, há aqui toda uma cadeia que faz com que os espectáculos pequenos de músicos pouco conhecidos acabem por ser muito pouco ou nada rentáveis nestas condições e, portanto, praticamente tenham deixado de existir. Esta questão, por exemplo, que ultimamente aconteceu do circuito de clubs se ter unido em função de uma associação, é muito reflexo disso, da percepção da incapacidade de lutarmos, cada um de nós, sozinho, contra isto. É uma iniciativa super de salutar e que eu aplaudo evidentemente. Realmente é uma forma de tentar contrariar neste momento circunstâncias muito difíceis de trabalho para essas casas que anos e anos e anos estiveram a desenvolver um público, que já tinham o seu público próprio. Uma banda vai tocar a um determinado espaço e mesmo que a banda não tenha esse público que encha aquele espaço, o próprio espaço enche para ver aquela banda porque as pessoas já sabem que se aquela banda vai àquele espaço é porque vale a pena irmos lá ver a banda, é porque é boa. Porque já há um critério de selecção tão forte que as pessoas já identificam o espaço com a qualidade daquilo que vai lá acontecer. Isto é uma coisa que neste momento está a ser posta em causa. Há montes de casas a que nos habituámos a ir, montes de clubes, de espaços que neste momento estão fechado, que não têm programação e que não podem fazer nada, ou podem fazer muito pouco. Aqueles que conseguiram sair do sítio onde estavam para fazer coisas fora de portas, com grande mérito e grande coragem também, mas são muito poucos. Estamos numa situação de facto muito difícil e que eu acho que ainda vai durar, francamente. Sou um optimista e estou sempre a lutar para que as coisas corram o melhor possível, mas a verdade é que não me parece que as coisas tão rapidamente vão melhorar assim de uma forma muito significativa. Adorava que isso acontecesse, mas não me parece.

Circuito: #aovivooumorto, uma manifestação pela programação musical nocturna

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Por: Vasco Completo • Imagem: Circuito



A música ao vivo em Portugal sofreu especialmente pela falta de apoios no decorrer de um ano de 2020 ímpar. Circuito nasce assim, da necessidade da defesa e manutenção dos direitos e condições dos espaços nocturnos que, de Norte a Sul do país, se vêem cada vez mais prejudicados e até obrigados a fechar, em alguns casos.

Circuito é uma nova associação que alia 27 salas e clubes de programação de música, e levanta a voz quando é mais necessário, numa manifestação entre Lisboa e Porto, Évora e Viseu, com o slogan #aovivooumorto. Em vista estão novas soluções para a legislação da programação cultural e também apoios para este sector, no qual artistas, técnicos e trabalhadores das várias casas se encontram sem uma rede que de segurança. Mas juntos, gritamos mais alto.

Deste modo, a manifestação de Circuito dar-se-á no próximo sábado, dia 17 de Outubro, pelas 15h, à entrada do Lux Frágil (Lisboa), do Maus Hábitos (Porto), do Carmo 81 (Viseu) e da Sociedade Harmonia Eborense (Évora), respeitando todas as normas da DGS.

Apresentando ainda um conjunto de medidas para a melhoria das condições da cultura nocturna e artística no país, Circuito responde ainda a uma série de questões pertinentes extremamente bem fundamentadas – que podem ser consultadas aqui.

Weathervane Records lança a quarta compilação da editora

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Por: Grua • Capa: Malgorzata Stryjek



Nasceu, durante o mês de Abril, como uma junção entre vários artistas da música experimental electrónica portuguesa, apelando à união num período muito difícil para a cultura. A Weathervane Records, desde Maio lançou vários trabalhos no seu Bandcamp, e regressa agora com Ghosts Don’t Sail These Shores, uma compilação que volta a focar-se na música ambient.

Estado de Emergência, o primeiro trabalho de Weathervane, deu o mote para o continuado trabalho da editora – que também funciona como programa na Threads Radio – e juntou ao princípio 20 artistas portugueses, que iam do ambient às caves mais vertiginosas voltadas para a pista de dança. Tomás Frazer, musicalmente conhecido como Oströl, tem sido o curador por trás destes trabalhos e, nesse aspecto, Ghosts Don’t Sail These Shores não é excepção.

Esta compilação volta a trazer a música mais contemplativa e sossegada do ambient, depois das edições de ​.​.​. Returning Whence Their Darkened Spirits Came e de Slipped Through the Closed Door, nas quais o foco era a mais explosiva e extrovertida música de dança. Além disso, esta 4ª edição traz também músicos além-fronteiras, com participações da Polónia, do Reino Unido, dos Estados Unidos da América e do Japão, e conta com participações do próprio Oströl, dos repetentes Vasco Completo, Moreno Ácido e UNITEDSTATESOF, e os estreantes Sann Gusmão, Kaiwa, Veabis and Tubbhead, The Artificial Pine, Augen, Neglect e Digital=Divine.

Ghosts Don’t Sail These Shores está disponível no Bandcamp desde 29 de Novembro, com uma excelente capa da autoria de Malgorzata Stryjek, e pode ser adquirida digitalmente.

Ciclo Paz & Amizade: O regresso dos concertos ao Barreiro

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Por: Grua • Imagem: Sílvia Rodrigues



Nos dia 29 de Agosto e 5, 12 e 19 de Setembro, os fins de tarde no Barreiro vão ter um sabor diferente. Com hora marcada às 18h30, o anfiteatro do Parque Paz e Amizade receberá um ciclo de concertos organizado pela associação cultural OUT.RA.

Importante para a vida cultural do Barreiro, a OUT.RA tem vindo a marcar a programação na cidade desde 2009 e, através dela, “transcende(r) géneros e fronteiras estilísticas”, no que toca principalmente à música e ao cinema, centrando-se na “promoção de uma cultura alternativa, ousada e enriquecedora”.

O ciclo Paz & Amizade terá concertos de Vaiapraia, Lula Pena, Rodrigo Amado e Ricardo Toscado, João Lencastre e Hernâni Fautino e FAST EDDIE NERLSON: Entre Barrett e a Lua – um concerto dedicado aos Pink Floyd. Como recomendação – quase algo que obrigatório -, os bilhetes devem ser comprados antecipadamente, com o valor de 5€ e com 50% de desconto até aos 25 anos. Podem ser adquiridos aqui.

Residência Independente desafia produção artística solidária

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Por: Grua • Imagem: Residência Independente

Durante o actual contexto de pandemia global, Ana Durão e Carolina Serranito criaram a Residência Independente, um projecto que juntou 44 artistas e criativos lançando um desafio: produzir obras dentro do seu regime de isolamento tendo como prazo 72 horas – entre 1 e 3 de Maio. As obras produzidas estão agora reunidas e podem ser consultadas aqui.

No seguimento da morte de George Floyd e com as manifestações associadas a esta crise social e política, a Residência voltou a propôr um desafio aos artistas com a participação na venda solidária, na qual o valor das obras vendidas reverte em 50% para a causa Black Lives Matter.

Associado a esta venda solidária, e de modo a promover a angariação de fundos, o artista Dreams on Board estará esta sexta-feira10 de Julho pelas 22h30 – em directo no instagram da Residência Independente, no qual apresentará o seu mais recente álbum Timeless.

Este é o terceiro álbum do artista, composto e produzido ao longo de três anos. Este foi concebido como “um exercício introspectivo, uma busca de respostas sobre a relatividade do sucesso e do tempo, e um tributo à arte enquanto balanço mental e espiritual acima do sucesso popular.”

Mais uma Bandcamp Friday de apoio aos artistas

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Por: Grua • Imagem: Emma Shore – Bandcamp

A solidariedade tem sido visível na impressão digital da comunidade artística nos vários meios. Na música, essa união tem-se reflectido particularmente pela intervenção daquela que é uma das plataformas mais justas e rentáveis para os artistas, numa altura em que os concertos (como os conhecemos) ainda são uma miragem: Bandcamp. 

O site tem sido alvo de atenção por, em período de pandemia, se ter chegado à frente no apoio aos artistas. Nos dias 20 de Março, 1 de Maio e 5 de Junho, o Bandcamp retirou as suas receitas das vendas de música e merchandising dos artistas e editoras presentes na plataforma. O dia 5 de Junho veio mostrar com ainda mais fervor esta solidariedade quando, segundo o Bandcamp, muitos artistas reverteram as suas receitas inteiramente para instituições que trabalham na luta contra a desigualdade racial – a propósito do movimento Black Lives Matter.

Hoje, dia 3 de Julho, é mais um desses dias em que os artistas e editoras recebem o total do valor das suas vendas. O Bandcamp deixa algumas dicas de como os fãs podem apoiar os artistas e de como estes podem redireccionar os ouvintes a descobrir novas formas de apoio.

Aqui podem consultar se o período de Bandcamp Friday se encontra ainda a decorrer.

Deixamos também várias sugestões de artistas/editoras em que acreditamos valer a pena dar um pouco de amor em forma de €.

V.A. – Verão Dark Hope

DA BARRIGA – Cátia Sá

RLGNS – When I Land (feat. y​.​azz)

Maria Reis – Chove na Sala, Água nos Olhos

Chinaskee – Janeiras

Raw Forest – POST SCRIPTUM

Carincur – Sorry If I Make Love With Sound

HIFA – It Spreads Underground

ZZY – Disorder

Luís Catorze – Trova do Vento que Passa

V​.​A. – NSD004

Manuel Guimarães – SHELTER II :home

Odete – Water Bender

ben yosei – luz

João Tamura – Cinza

João Almeida – SOLO SESSIONS *​|​|​|​|

ZABRA – Intercepção

Weathervane Recs – Estado de Emergência

Maria & DarkSunn – Crooked N’ Grinded

Kamaraum – Até Amanhã (ft. JAY, João Tamura, Sara P. Mendes)

Aurora Pinho – FLESH AGAINST FLESH (Instrumental)

O 2º Simpósio do NEGEM atenta as relações entre género, música e media

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Por: Grua Imagem: NEGEM

É amanhã que tem início o 2º Simpósio do Núcleo de Estudos em Género e Música, inserido no CESEM – Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical – NOVA FCSH, decorrendo pelos dias 29 e 30 de Junho. O tema Música, Género e Media está no centro do encontro, tendo como intervenientes Mariana Rodrigues, Marcelo Franca, Mariana Cabica, Catarina Silva, Joana Lourenço, Ângela Flores Baltazar, Ricardo Pereira, Alejandro Reyes Lucero, David Cranmer, Júlia Durand, João Porfírio, André Malhado, Paula Gomes Ribeiro, Joana Freitas, Francisca Alvarenga.

Esta é uma edição que, inevitavelmente, decorrerá através da plataforma ZOOM e que se encontra dividida em quatro painéis, um debate com o tema “Práticas musicais e sociabilidades em espaços de entretenimento nocturno – perspectivas e casos” e ainda uma mesa redonda centrada no filme Call Me By Your Name de Luca Guadagnino.

A discriminação do género em diferentes contextos musicais é o tema que inicia este encontro virtual, tendo a sua abertura pelas 8:50h. O segundo dia inicia com o tema Intimidade e erotismo, e o fecho do simpósio dá-se com um momento musical ao vivo protagonizado por Ângela Flores Baltazar e Alejandro Lucero Reyes.

A participação no encontro é gratuita e a inscrição pode ser feita através do email negemus.cesem@gmail.pt