DOCUMENTÁRIO “PEOPLE” – PETITES PLANÈTES EM PORTUGAL X CANAL 180

notícia

Texto: Océane Monteiro • Imagem: Vincent Moon

O projeto Petites Planètes está de volta a Portugal, depois de uma série de três filmes ao vivo em 2019. Desta vez oferece-nos uma experiência documentária, “People”, em parceria com o Canal 180. Expõe o significado de ser artista, a exploração deste significado e a sua relação com a sociedade num contexto de crise mundial.

No decorrer de uma semana em Berlim, 200 artistas de todo o mundo foram convidados a criar música colaborativamente e, sem expectativas, construíram uma experiência performativa única em “vários espaços dos lendários estúdios Funkhaus”. O documentário conta a história deste ritual, reconstruindo-o.

Petites Planètes é um projeto composto por filmes, performances cinemáticas, instalações imersivas e trabalhos fotográficos. Uma produtora independente criada por dois artistas franceses, Priscilla Telmon e Vincent Moon, com o objetivo de explorar os limites entre o cinema, a música e outros formatos artísticos modernos.

Com uma perspetiva bastante similar anexa-se como parceiro o Canal 180, um canal inteiramente dedicado à cultura, às artes e à criatividade. Seguidores de uma agenda artística em constante mudança, entregam-nos conteúdo criativo criado por uma nova geração de artistas.

O público pode assistir a este documentário já este domingo (27/09) na Casa das Artes do Porto; no dia 28/09 no Auditório Soror Mariana, em Évora, e ainda no dia 29/09 no espaço DAMAS em Lisboa, sendo que este último terá a entrada limitada a 25 pessoas mediante inscrição por e-mail.

Catarina Molder – OPERAFEST Lisboa: “Nunca quis fazer um festival de nicho para público especializado”

entrevista

Por: Vasco Completo • Fotografia: OPERAFEST Lisboa

“Dos grandes clássicos, à ópera de vanguarda, ao encontro de todos os públicos, com formatos variados, apresentados maioritariamente ao ar livre, com a grande missão de projectar esta forma de arte total no futuro, o OPERAFEST nasce num ano particularmente exigente, mas de alma e coração, para oferecer e emoção da ópera a todos!”. É este o mote do novo Festival dedicado à música operática em Portugal, que decorre entre 21 de Agosto a 11 de Setembro em vários espaços de Lisboa, como o Jardim do Museu de Arte Artiga ou as Carpintarias de São Lázaro.

Com os objectivos de enriquecer a produção operática a nível nacional e de cultivar um interesse mais generalizado por este género tão relevante, o OPERAFEST Lisboa apresenta uma programação diversificada e atenta à criação contemporânea desta música – particularmente no concurso de ópera contemporânea, a Maratona Ópera XXI (divida em duas partes- I e II). O festival conta ainda com a Tosca de Puccini – sobre a qual a programação gravita –, com uma Gala de Ópera, Cine-óperas e com a ímpar Rave Operática.

A ópera, embora figure como uma das músicas mais ricas da história, gradualmente viu o seu público tornar-se um meio de nicho, e está na intenção do OPERAFEST diminuir o tamanho do muro entre esta cultura e um meio mais popular.

A Grua conversou com Catarina Molder, directora geral e artística do festival, sobre o OPERAFEST e as dinâmicas e ideias por trás do festival. O seu olhar realista, mas motivador, é motor para esta máquina se mover.

Os bilhetes para o OPERAFEST Lisboa 2020 podem ser adquiridos na BOL.

Design: Rita António

Como vês o panorama da música operática em Portugal actualmente? Com que olhos vês o que se está a fazer em Portugal comparativamente ao que se faz noutros países europeus ou mesmo a nível global?

• Lisboa é a capital e Portugal o país de toda a União Europeia que menos ópera produz. Existe um preconceito generalizado na maioria dos teatros portugueses e das chamadas artes performativas contemporâneas face à ópera, por puro desconhecimento. O nosso único teatro de Ópera, O Teatro Nacional de São Carlos, além de ter perdido nas últimas décadas capacidade de investimento e peso no projecto artístico, tem revelado ausência de estratégia, que a tutela não questiona nem exige, novamente por desconhecimento de causa. O São Carlos devia ser um agente catalisador da mudança de paradigma, fomentando a proliferação da ópera em Portugal, com temporadas paralelas noutros equipamentos da cidade e do país, com outros formatos, apostando no talento nacional, em parcerias estratégicas internacionais, na divulgação da ópera portuguesa, na renovação de repertório e de públicos, um serviço educativo com objectivos bem definidos… enfim, o básico que se deve exigir a uma instituição com financiamento público. No Porto, o próprio Teatro Nacional de São João, construído como Teatro de Ópera (na altura, as grandes produções iam primeiro ao Porto e só depois ao S. Carlos em Lisboa) devia ter uma cota de ópera na sua temporada, potenciando o talento e excelentes cantores, músicos e agrupamentos da cidade do Porto e da Região Norte do país, sem oportunidades de trabalho – novamente ausência estratégica da tutela.
Enfim, um ciclo vicioso: quanto menos se faz, menos se quer fazer, quanto menos se sabe, menos se consegue fazer. A própria dgartes não tem uma subcategoria de ópera nos concursos. Tem de se concorrer via música, quando a música é uma arte abstracta e a ópera é toda ela concreta – uma forma de arte que abarca todas as outras e é altamente especializada. Até o novo circo e artes de rua, têm uma categoria… Só criar uma categoria de ópera, aumentando subsequentemente as cotas de produção, já seria um passo em frente. Dando alguns exemplos, e sem falar de países ricos com enorme tradição, nem nos principais festivais de ópera do mundo, mas: a nossa vizinha Espanha, que tem capacidade de investimento e sabe usar o dinheiro com estratégia, tem 21 teatros de ópera e vários Festivais de dedicados ao género. Alguns países de Leste, com uma capacidade de investimento mais limitada, potenciam com grande inteligência os recursos na promoção de ópera, artistas e compositores nacionais, com excelentes resultados. Quem tem pouco dinheiro, tem de conhecer muito bem o meio, o mercado local e internacional e inventar mundos do nada, e isso só com conhecimento, criatividade e paixão. É isso que o OPERAFEST LISBOA representa. Um Festival absolutamente inovador, que pretende chegar a todos os públicos, que cruza tradição e vanguarda, que aposta no talento nacional a todos os níveis, no futuro da ópera e em cruzamentos múltiplos, à conquista de novos públicos, que é tão urgente para a ópera, cristalizada no passado. Com um orçamento mínimo, em que 65% vem de retorno de bilheteira e de investimento directo da ópera do Castelo, que produz o evento, conta com algum apoio da CML, com um subsídio da dgartes para o concurso Maratona Ópera XXI, que foi o gatilho para tudo o resto vir a acontecer e estamos sem dúvida a arriscar o nosso capital para fazer serviço público. O Operafest pretende estrategicamente trabalhar em múltiplas frentes. Mais de 50% dos nossos colaboradores são jovens até aos 25 anos e todos remunerados, e coloca finalmente Lisboa e Portugal na rota de Festivais de ópera de Verão Internacionais, com um projecto que marca a diferença.

A música erudita contemporânea tem sido usufruída por um meio de nicho, até certo ponto. Está nas intenções do festival dar a conhecer alguma desta música (mais ou menos conhecida) a um público mais vasto e variado?

• Sem dúvida, queremos de todo afastar a ideia de ópera para um nicho especializado. Queremos que todo o público, com gostos variados, venha à descoberta das propostas das novas gerações de compositores. Queremos que os compositores treinem para apurar o seu processo criativo. Queremos estimular novo repertório, tão urgente, e envolver novos criativos. Abrir o formato à vida de hoje. Tem de haver mais produção da ópera contemporânea, mais diversidade nas propostas, mais ligações com o mundo e o público de hoje. A ópera, tem de seguir o modelo eclético e ultradinâmico do cinema, que foi a forma de arte total de contar histórias que passou do palco para o ecrã. Os grandes compositores de ópera como o visionário Wagner, mas também Puccini, já seguiam uma narrativa muito cinematográfica na forma de contar a história. Nesse sentido, foi para nós essencial no processo de selecção do concurso, a força dos libretos propostos e, claro, a aptidão dos compositores para escreverem para cena e para o canto, e também o facto da ópera ser avaliada na sua fase final como espectáculo, por um júri de várias áreas distintas e pelo próprio público. Todos os compositores receberam bolsas e o vencedor ganhará o Prémio Carlos de Pontes Leça – uma encomenda no valor de 5000 euros para uma ópera de maior fôlego, a apresentar em edições futuras.

Em que consiste a Rave Operática? Parece ser o âmago da intenção transversal do festival. Há aqui algum interesse na intercepção entre diferentes meios musicais?

• A rave operática funde o mundo pop, com a ópera e culmina com a micro-ópera “orgásmica” Prazer da Ana Seara. Inicialmente queria fazer um espectáculo/festa com a loucura e o dramatismo da ópera e o frenesim da música disco, mas veio o Covid19 – a segurança de todos é essencial. Portanto a loucura vai estar lá – mas com distanciamento e lugar marcado –, o espectáculo e o dramatismo também, com homenagens a dois astros que misturaram o pop e a ópera, Klaus Nomi e Nina Hagen; e misturas líricas variadas, onde assistiremos ao original e depois à mistura. Ainda há outras propostas surpreendentes. Materializa-se no palco, o que comecei na minha série televisiva Super Diva, ópera para todos, com 3 temporadas na RTP2, em que uma das rúbricas de maior sucesso foi as Misturas Líricas, onde convidei músicos de todos os quadrantes musicais, para retrabalhar trechos de ópera e foi fantástico.

Fala-nos um pouco sobre as óperas encomendadas que vão estear no festival.

• A única ópera encomendada pelo OPERAFEST foi a micro-ópera Prazer, em torno do orgasmo, à jovem talentosa compositora Ana Seara. Gosto que seja uma mulher a fazê-lo. A mulher, que durante tanto tempo na história da humanidade se viu privada de manisfestar o talento de compor, apanágio do macho, assim como viu o seu prazer sexual abafado em torno novamente do prazer masculino e da reprodução. Também representa ir à origem da nossa fonte de apoio sonoro, o diafragma que responde aos estímulos de dor e prazer, desde que nascemos. Os espasmos do choro, os gritos de prazer, vêm da mesma fonte que os cantores líricos treinam para sustentar o seu trabalho vocal, sempre ligada à emoção, daí a intensidade emocional sonora do canto lírico.
Embora não sejam encomendas, no concurso para novas óperas – Maratona Ópera XXI apresentamos 7 óperas em estreia absoluta divididas por Maratona I e II, que foram seleccionadas e depois compostas durante a quarentena pelos compositores Pedro Finisterra, Diogo da Costa Ferreira, João Ricardo, Miguel Jesus, Sara Ross, Fábio Cachão e Tiago Videira. Com enredos muito variados que retratam as relações humanas no amor e no poder, a ganância, a traição, a insatisfação amorosa, os impasses da vida conjugal, a tirania da tecnologia na vida das pessoas, temas actuais e intemporais, na pluralidade de diferentes vozes e formas de compor. Todas estas óperas em língua portuguesa e interpretadas também por cantores portugueses de várias gerações, dirigidas pela maestrina Rita Castro Blanco, com a encenação de António Pires.

O festival tem a duração de quase um mês. Este período de tempo, mais alongado em relação a outros festivais, deve-se à tipologia da programação ou é uma forma de abranger um maior número de participantes com as devidas medidas de segurança?

• Tem a ver com a tipologia do Festival de ópera. No mercado mundial dos Festivais de Ópera de Verão esta duração é relativamente normal, porque só assim é possível apresentar uma programação variada e abrangente, e, claro, dependendo da capacidade de execução versus financiamento. Por outro lado, cada espectáculo de ópera tem uma preparação morosa e muito custosa. Um papel principal de uma ópera não pode ser cantado diariamente e ininterruptamente, se não “rebenta-se” com o cantor e com o resto da equipa. Ao contrário do teatro, a ópera tem de ter récitas mais espaçadas no tempo.
Também, como trabalhamos ao ar livre e apresentamos espectáculos e não concertos, precisamos da noite, para se fazer luz. Por outro lado, queremos que o público que vá ver a Tosca, venha à maravilhosa gala do tenor em ascensão mundial, pela primeira vez em Lisboa, Rodrigo P. Garulo e que possa ainda conhecer a nova ópera portuguesa, na Maratona Ópera XXI; que usufrua das conferências por Maria Filomena Molder e Rui Vieira Nery; venha ao Cine-ópera e ainda experimente a Rave operática. E para isso os eventos não se devem sobrepor!

Porque escolheste a Tosca de Puccini para ser a órbita sobre a qual o festival gravita?

• Pretendi criar um festival que cruzava tradição e vanguarda, porque em todas as artes e na vida, vimos de uma tradição e passado riquíssimo que nos formou, que nos inspirou e que nos permite ver o futuro. A vanguarda que anula o passado não é vanguarda: é procura de originalidade vã. A vanguarda vai atrás buscar impulso e dá um mortal para a frente. Preocupa-me muito o futuro da ópera, este impasse de viver do passado. É urgente renovar, estimular novo repertório. Portanto, o gatilho do OPERAFEST foi o concurso de ópera contemporânea – Maratona Ópera XXI. Mas, era necessário dar escala ao Festival, ir à tradição e apresentar um grande clássico. A Tosca de Puccini, foi uma ópera visionária, um thriller operático. É já um filme, que poderia ser feito por Hitchcock 50 anos mais tarde. Apresenta a primeira heroína operática moderna. Para além de ser uma das óperas de repertório mais emblemáticas é a 3ª ópera mais vista de sempre. E é ainda uma ópera perfeita para introduzir alguém a este género e tem tudo: paixão, mistério, crime e a música mais sublime, e ainda acresce o facto de Lisboa não a ver há mais de 10 anos. Pareceu-me um título perfeito. Nunca quis fazer um festival de nicho para público especializado, gosto de misturar, de cruzar, o passado, o presente, o futuro, repertórios e gostos. Para mim, e no meu trabalho enquanto artista ou directora artística, o ecletismo é essencial. Na cine-ópera que apresentamos em parceria com a grande distribuidora alemã Unitel, voltamos a apostar nos ícones de tradição, com intérpretes estratosféricos, referências estruturantes que os habituiées adoram revisitar e os iniciados têm de descobrir.