Um de mil x 3 – #5 Novembro 2020: Gaya Jiji, Em poucas palavras e Satha Lovek

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Um de mil x 3 é a rubrica da Etérea que pretende dialogar e explorar a comunicação e a crítica de arte sem limites, mas com um olhar especialmente dedicado a novos projectos que surgem em território nacional, tendo em grande consideração as profundas diferenças que existem entre meios artísticos e culturais, as dinâmicas de contacto entre artista, consumidores, e restantes envolventes.

Mensalmente, exploramos três lançamentos/projectos/criações que reflictam o propósito da linha editorial da Etérea, a partir de pequenas reflexões a cargo tanto dos membros do Colectivo Grua como de convidados.


Mon Tissu Préféré – Gaya Jiji

Texto: Beatriz Passos

Março de 2011: uma mãe e três filhas vivem num prédio em Damasco na altura em que a cidade começa a sofrer bombardeamentos. Simultaneamente, uma mulher ocupa uma das casas no edifício e transforma-a num bordel clandestino.

Esta é a história de uma das filhas, Nahla, uma mulher que nos mostra o que é ser uma jovem adulta no meio do início da guerra na cidade de Damasco. Dividida entre os cenários casa/rua, a dualidade dos sentidos faz-se transparecer simultaneamente através de imagens oníricas do amor, que chegam a sobrepor-se à percepção da realidade.

Ao contrário da irmã mais nova, atenta aos acontecimentos políticos e sociais, Nahla mostra-se aparentemente apática ao início da guerra na Síria. A ambiguidade que caminha lado a lado com a personagem leva-a a tomar decisões que a deixam sozinha e, o que parecia inicialmente um sentimento de indiferença, culmina num ressentimento pela irmã mais velha – que lhe tira a oportunidade de deixar o país. Apesar da apatia inicial, na verdade o seu sonho sempre foi sair da Síria.

De forma muito peculiar, com uma sensibilidade selvagem e insconstante, Mon Tissu Préféré permite-nos viajar pelo imaginário de Nahla e transporta-nos pelo oscilar de emoções que surgem no decorrer da longa metragem, chegando até a causar-nos alguma inquietação.


Em poucas palavras

Texto: Diana Mordido Aires

Este texto conformou-se à primeira pessoa, e por isso tem de falar, mesmo que muito superficialmente de mim. De ti. Deles. De nós.

Numa frase recortada, com palavras contadas, convidei diferentes artistas a repensar no seu trabalho, para que nos pudéssemos aproximar de diferentes práticas artísticas, que estão a acontecer hoje, neste preciso momento. Eu, influenciada pelos dois dedos de conversa que troquei com estes autores, gosto de pensar que me tenho tornado uma nómada nestes imaginários, e por isso invejo-vos a vocês, e ao vosso olhar despido de referencias destas representações do mundo, que aos poucos e poucos se entranham em nós.

Numa frase recortada, despida de contexto, somos desafiados a ecoar na perspetiva do outro, num processo de construção de significados, atordoado pelo limite de palavras. Fui eu quem os convidou, admito. É por isso que me consigo rever nas suas palavras? Porque já os conhecia anteriormente? Ou será tudo isto um ciclo?

#1“Somos um colectivo de investigação e criação artística, em torno do território e as suas diferentes dimensões culturais, sociais e ambientais.”(21) West Coast

#2″Crio entre arte e educação para nunca deixar de estar olhos-nos-olhos com o outro e juntos seguirmos viagem.” (18) Ricardo Guerreiro Campos

#3″Sou uma insular obcecada com a natureza. É sem querer. Só sei comunicar através de meios artísticos. Ou quiçá estou iludida. Sou feliz.” (23) Margarida Andrade

#4″O meu trabalho enquanto autor serve como ferramenta para me alinhar com os meus valores. Procuro ser honesto.” (18) polivalente

#5″Procurar pelo espanto nos embates com o mundo para criar novos mitos na tecitura dos dias que estão por vir.”(20) Mónica Garcia


PT Malacca – Satha Lovek

Texto: Vasco Completo

É um trabalho invulgar no panorama nacional. Esta primeira afirmação não se prende com os géneros que categorizam o EP de estreia de Satha Lovek, projecto de Rúben Silva e João Coutinho, mas talvez com a temática associada a estes universos musicais.

Afirma-se pós-colonial, e é: o sample de voz de Kantigas Di Padri Sa Chang que surge logo no primeiro tema, “Mata-Kantiga”, retoma uma discussão que se mantém relevante – depois de tantos anos passados do ido 25 de Abril de 1974, muito há para se mudar na mentalidade deste país à beira mar plantado. Será isso que Satha Lovek quer expressar com música instrumental?

Talvez. O techno industrial, que é por si libertador, exercido em pistas de dança como forma de diálogo político e cultural, vê-se aqui preso em “Grago” a um compasso quaternário opressivo e sufocante. O nacionalismo tem duas (ou terá mais?) faces, mas delas podemos apenas retirar o pensamento animalesco de que tem de existir um opressor e um oprimido.

A beleza de PT Malacca não é só sentida nos pads e sintetizadores imersivos, contemplativos e harmónicos: está também nos espaços que existem entre o experimentalismo sónico mais dissonante, e os acordes sedosos e etéreos. “Ode To Malacca” demonstra-se, então, como a música que melhor aglutina todos estes ambientes que compõem o EP do duo, de IDM, drone, ambient, ou ainda free jazz. Entre o que parecem ser gravações de campo, algum processamento de samples e outros instrumentos, o duo trabalha o campo estereofónico com a liberdade de quem se desprende das amarras pela primeira vez. E fá-lo com tão belos ambientes e melodias…

Um de mil x 3 – #4 – Setembro 2020: Mázinha aka Madalena, Joana Escoval e Dinis Leal Machado

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Um de mil x 3 é a rubrica da Etérea que pretende dialogar e explorar a comunicação e a crítica de arte sem limites, mas com um olhar especialmente dedicado a novos projectos que surgem em território nacional, tendo em grande consideração as profundas diferenças que existem entre meios artísticos e culturais, as dinâmicas de contacto entre artista, público, e restantes envolventes.

Mensalmente, exploramos três lançamentos/projectos/criações que reflictam o propósito da linha editorial da Etérea, a partir de pequenas reflexões a cargo tanto dos membros do Colectivo Grua como de convidados.


Mázinha aka Madalena

Texto: Anita Pinto

As pinturas figurativas de Mázinha, natural de Lisboa, navegam em cenas do cotidiano que se misturam com a experiência pessoal, e do seu imaginário com referências mais gráficas da cultura pop.

A busca pela beleza em seus trabalhos se mostra na valorização da força que é atribuída a cada elemento. A interação dos protagonistas, muitas vezes mulheres, e que surgem também como autorretratos, com elementos da natureza, plantas e tigres, folhas e maçãs, fazem parte dessas quase fábulas contadas em suas composições.

Os traços das pinceladas demonstram a espontaneidade com o que o trabalho é realizado, não há tempo para pequenos detalhes. As cores e planos achatados, confundem o nosso senso de distância, e as despreocupadas perspetivas nos levam direto para dentro desse mundo singular. Assim como boa parte da nova geração, e que vai até artistas como David Hockney, o uso de ferramentas digitais, como um iPad e essas referências estéticas também ficam propositadamente presentes no processo criativo.

Como os grandes artistas que deram nome à arte Naïf, Mázinha aka Madalena também é artista nata, que nunca estudou artes plásticas, e algo que é parte essencial de seus trabalhos, não há muito pudor.

Cantautora, compositora, tatuadora e também percussionista, ela faz parte de um novo grupo de artistas que surgem com novos ares, em busca de novos formatos, e que naturalmente saem da curva convencional estabelecida por uma lógica de mercado já enfraquecida. Não há pressão, mas sim, muita liberdade. Talvez esteja aí mesmo a sua potência.

Fotografias: Mafalda + Marta Pelágio


“Mutações. The Last Poet” – Joana Escoval

Texto: Beatriz Passos

Uma atmosfera inserida num espaço tão diversificado, um mundo dentro de um mundo cheio de outros mundos em si. No Museu Berardo, com a exposição temporária “Mutações. The Last Poet”, Joana Escoval concebe uma dimensão precisa e intimista, recriando o que poderá ser uma paisagem pré-histórica com um minucioso toque de contemporaneidade, metamorfoseando-se estes num espaço visualmente minimalista, no qual existe simultaneamente uma amálgama de energias.

A dualidade dos sentidos faz romper um caminho projectado entre o orgânico e o artificial, entre o humano e o que não deseja, à partida, fazer parte de um mundo natural. Ainda assim, esta combinação torna-se de tal maneira harmoniosa, que tudo parece fazer sentido no espaço.

Ao longo do caminho, atravessando espaços entre corredores, onde vértices não existem, sente-se o desencadear de sensações que nos unem à arquitectura – talvez pela organicidade de todo o conjunto que compõe a exposição. Os vídeos, em tons que invocam o sol e todo o ambiente criado, transportam-nos ao início de um 2001: Odisseia no Espaço, não só visual em termos formais, mas sobretudo relativo à luz, à cor e à energia que habita o espaço.

Não se tratando de uma obra por si só, como qualquer outra instalação, “Mutações. The Last Poet” precisa do seu público para que exista esta mudança. Uma mutação natural, dependente da poesia do tempo.

Fotografias: Museu Berardo


A Vida Dura Muito Pouco – Dinis Leal Machado

Texto: Rita Matias dos Santos

Nunca seremos os mesmos depois da contagem de um segundo. E basta apenas um para mudar tudo. Tal como Filipa Henriques afirma, “José Pinhal foi um estranho na multidão”, pois o tempo passou e quase se dava por esquecido nas entrelinhas do tempo. 

Em A Vida Dura Muito Pouco, Dinis Leal Machado partiu do hoje até ao encontro de José Pinhal, num documentário que torna palpável o doce veludo das vivências noturnas do norte do país na década de 1980. De maneira cativante, rítmica e surpreendente, o jovem realizador conta-nos uma história sobre o acaso. A mera coincidência de encontrar uma cassete no lixo de uma antiga editora de música popular, que nos leva a viajar por uma portugalidade íntima e nostálgica, até ao reavivar de algo que se pensava esquecido. Através da criação de um quase culto em redor deste senhor de bigode farfalhudo e indumentária aperaltada, que marcava frequentemente presença nas míticas boates e clubes noturnos da noite portuense. Atualmente, dessas casas restam memórias e histórias cobertas de pó, e se Pinhal não se perdeu igualmente no caminho, foi porque o destino e a Internet assim o quiseram. 

Hoje, após a sua morte, José Pinhal vive nas gargantas daqueles que, com as suas letras e melodias o homenageiam, como vincam os concertos de José Pinhal Post Mortem Experience, porque afinal a portugalidade não se esquece, reformula-se.

Um de mil x 3 – #3 -Agosto 2020: FALU, Ebinum Brothers e Príncipe Discos

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Um de mil x 3 é a rubrica da Etérea que pretende dialogar e explorar a comunicação e a crítica de arte sem limites, mas com um olhar especialmente dedicado a novos projectos que surgem em território nacional, tendo em grande consideração as profundas diferenças que existem entre meios artísticos e culturais, as dinâmicas de contacto entre artista, consumidores, e restantes envolventes.

Mensalmente, exploramos três lançamentos/projectos/criações que reflictam o propósito da linha editorial da Etérea, a partir de pequenas reflexões a cargo tanto dos membros do Colectivo Grua como de convidados.


FALU – Festival Artístico de Linguagens Urbanas

Texto: Rita Rosado

Com a ideia de criar um roteiro de cultura urbana – sendo esta conhecida por tratar temas sociais e contemporâneos – nasce o festival FALU, o primeiro festival de arte urbana das Caldas da Rainha. 

Os muros, as paredes e as fachadas são a melhor representatividade dos “destaques” propagados por todo o mundo e, pelos tempos sucedidos atualmente, a liberdade criativa encarrega-se apenas de artistas portugueses. Numa cidade onde existe um grande incentivo cultural e artístico, não só protagonizado pelos trabalhos do artista Bordalo Pinheiro, como também pela Escola Superior Artes e Design (ESAD), os seis murais idealizados em duas freguesias, com tema livre, procuram respeitar as referências identitárias da cidade. 

Pelos olhos de uma inquietação vivida por aquilo que acontece no mundo, à mistura com uma identidade forte vinda desta cidade, são apresentados nomes como Bordalo II, Add Fuel, Akacorleone, Daniel Eime e Nuno Viegas, que pretendem estimular a prática de outras vertentes artísticas da cultura urbana. No entanto, para além de se poder contemplar a verdadeira arte por parte destes artistas, foi possível dar voz aos mais emergentes, locais ou residentes. 

Numa introspeção pessoal, não é por acaso que isso acontece: FALU, tal como é mencionado pela organização do projeto, dá-se tanto pelo tão característico pénis das Caldas da Rainha, como também pela palavra falo, de falar/expressar. Não ficando pelo figurativo, mas sim pela exposição dada aos artistas que lutam pelo patriotismo, mostrando a sua arte “lá fora” com grande êxito, não apenas esteticamente falando, mas acima de tudo pela mensagem transmitida em todos os seus projetos. Mais do que isso, é elevar as oportunidades a TODOS, democratizando a nossa cultura, sendo este um projeto que, cremos, que se deveria considerar espelho para outras cidades. A arte urbana, a arte visual e plástica, o teatro, a música, a dança, a literatura… mais do que ontem, o hoje e o amanhã distanciam-se destas linguagens. Devemos agir, sempre.


To build a homeEbinum Brothers

Texto: Sara P. Mendes

Perdi-me num caminho que criei, encontrei-me em mim. Redescobri o que significa quando um movimento de braço me invoca subitamente equilíbrio. Quando um aperto e desaperto de corpos me aperta e desaperta a mim.

A arte não é senão um reflexo dos tempos, uma maneira de encontrar o caminho para casa, quando estamos perdidos em caminhos que criámos ou que criaram por nós.  E nesta procura de nos refletirmos no meio artístico os dois irmãos absorvem a natureza como um meio e um fim, criando um espelho do que dizem ver e sentir da natureza que os rodeia, uma percepção a que chamam “togetherness”.

Apercebemo-nos de que quando não existem oportunidades, inventam-se, quando não existem recursos, criam-se novas visões. Na procura desta ideia de “união” entre a arte e a natureza, procuramos a simplicidade; e tal como num livro que é escrito por dentro e transporta-nos para fora; também nos braços de Victory e Marvel somos transportados. 

Sonhamos com o futuro, com a nossa Casa. E para estes irmãos da Nigéria a Arte é um reflexo do caminho, e o caminho pode ser tudo o que temos, mas deixa-nos cada vez mais perto de casa.


Verão Dark Hope – Príncipe Discos

Texto: Vasco Completo

O corpo de trabalho da Príncipe Discos é dos mais incontornáveis da música portuguesa. A influência que tem tido em novos produtores e na impressão digital da electrónica nacional na última década alterou toda a paisagem sonora que conhecemos, mas também da que os outros (lá fora) conhecem de nós.

Entre melodias e samples soalheiros, as síncopas das batidas, que se apresentam com uma intensidade menor que o normal – intensidade típica de quem tem um copo gelado com uma bebida qualquer na mão, areia nos pés – não fogem à equação a que a Príncipe nos tem habituado, aliando como sempre técnicas de produção electrónica refinada a kicks possantes e tarolas dançadas, em forma de tarraxo, kizomba, batida, kuduro e tantos mais.

A editora portuguesa que voltou a merecer destaque na Pitchfork – que cedo abraçou as sonoridades mescladas que habitam a música da Príncipe pelas palavras de Philip Sherburne – já não lançava neste formato desde a celebrada compilação Mambos Levis D’Outro Mundo, de 2016. A relevância e crescimento da editora sente-se em várias dimensões, mas nota-se aqui, no crescimento do número de intervenientes nesta VA.

A esperança é o mote para esta compilação que sai no complexo e ímpar ano de 2020. Um ano que se apresenta sem qualquer precedente no que toca à pandemia, mas com precedentes demasiado evidentes quanto ao racismo entranhado na sociedade portuguesa. Vamos dançar a esperança e, como diz a própria Príncipe Discos, “vamos manter-nos focados na Mudança”.

Um de mil x 3 – #2 -Julho 2020: Ânia Pais, Watchlouder e ZABRA Records

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Um de mil x 3 é a rubrica da Etérea que pretende dialogar e explorar a comunicação e a crítica de arte sem limites, mas com um olhar especialmente dedicado a novos projectos que surgem em território nacional, tendo em grande consideração as profundas diferenças que existem entre meios artísticos e culturais, as dinâmicas de contacto entre artista, consumidores, e restantes envolventes.

Mensalmente, exploramos três lançamentos/projectos/criações que reflictam o propósito da linha editorial da Etérea, a partir de pequenas reflexões a cargo tanto dos membros do Colectivo Grua como de convidados.


Passagem – Ânia Pais

Texto: Diana Mordido Aires

Num mundo do avesso é tentador cair no aconchego da nostalgia, onde reinam as memórias de cenários e personagens mudas. São estes enredos que podemos projetar no universo de sobreposições e ilusões construído pela artista plástica Ânia Pais.

Passagem, 2019, é uma instalação que se propaga pelos ruídos da floresta, e nós, enquanto espetadores, somos tentados a seguir um trilho demarcado por uma mancha em movimento, que se desloca em ziguezague pelas árvores. Descobrimos assim um atalho para as trevas e escuridão do mundo, onde facilmente somos consumidos pelo desconhecido. É uma passagem, nada secreta, que nos incentiva a nos perdermos e a questionar tudo e todos. E, aqui ou ali, sem respostas, podemos renegociar todas as nossas incertezas e transportar este questionamento connosco. Esta obra não habita apenas esta floresta: se estivermos dispostos, pode propagar-se e habitar todos os cenários mudos que constroem o mundo quotidiano, que nunca pensaram ser cobiçados.

Num mundo de incertezas, é complicado fazer afirmações, distinguir a luz da sombra, a presença do imaterial. É neste paradoxo que este universo vive.


Sem título – Watchlouder

Texto: Ana Marta Estrada

O barreirense Eduardo Vieira, ou Watchlouder no mundo da ilustração, ambicionou cedo que queria emigrar para Inglaterra para estudar esta arte. Foi por lá que ficou durante oito anos, onde cresceu e percebeu a sua paixão.

Em 2014, começou a encontrar-se estilisticamente, inspirado por artistas como Alex Gamsu Jenkins e Jor Ros. Contrariamente a estas inspirações – que têm já escolhas cromáticas muito definidas e variadas -, Watchlouder teve alguns dilemas no que toca a cores a utilizar nos seus trabalhos. Finalmente encontrou a sua paleta de eleição, entendendo que passaria a usar o preto e o amarelo como representação da sua arte, sendo até hoje o seu contraste favorito.

A ilustração apresentada não tem título – não existe essa necessidade. Por vezes os nomes podem abrir caminhos e interpretações que o artista não tenciona. Por isso mesmo, é também curiosa a falta de definição de um caminho, de um nome, pois deixa todas as portas em aberto. É no fundo estrelado que observamos as mãos da criação, que representam a galáxia e em cada uma podemos encontrar um planeta dissemelhante.

A insistência com as mãos não vem de um passado ideal para alguns artistas. Anteriormente, Watchlouder odiava desenhá-las e sentia que eram pouco realistas. Provocatoriamente, continuou a desenhá-las, pois considera que da sua forma tem mais expressão e, desta vez até podemos encontrá-las à venda.

O ano de 2019 foi quando encontrou o seu estúdio em Portugal – ano de criação desta ilustração -, um espaço que pressiona o seu lado mais criativo e onde começou a trabalhar na sua técnica mais característica, a serigrafia têxtil.


INTERCEPÇÃO – ZABRA Records

Texto: Beatriz Passos

Partindo de fotografias, pinturas, performances e instalações fictícias – sendo estas atribuídas a cada um dos 10 artistas que formam esta compilação – João Pedro Fonseca cria e faz a curadoria da galeria virtual intitulada de INTERCEPÇÃO.

Não sabemos qual a entrada correcta, qual o início mais lógico. A primeira sensação que esta exposição nos causa é: por onde começar? Afinal, muito semelhante ao que sentimos com o iniciar da viagem por uma galeria física. Existe a possibilidade deste caminho ser determinado, não por nós, mas pela percepção que temos da imagem que nos é apresentada no site da ZABRA Records. Podemos ser guiados pela planta, remetendo para a arquitectura de um espaço físico real – que aqui passa a digital -, e simular limitações sensoriais que nos guiam como se sensores mentais existissem.

INTERCEPÇÃO quer mostrar-nos que todas as diferentes formas físicas e químicas existentes no universo podem unir-se, criando apenas uma linha transversal. Apesar de incluir várias massas, trata-se de uma linha homogénea e única, formando um todo devido à sua intensidade. É assim criada outra dimensão muito própria e densa, como se de um universo paralelo falássemos. Não se trata exclusivamente de uma linha por se considerar constituída por matéria simples, pelo contrário. Tudo se une, mas sem considerar a uniformização.

O conteúdo dado por cada artista deixa-nos levar pelo que de muito pessoal interpretamos em cada sala. A faixa produzida por cada um, juntamente com as palavras, fotografias e vídeos, permitem-nos elaborar um ambiente que incita a criação de uma multiplicidade de caminhos conceptuais.

Diário de uma visita a INTERCEPÇÃO – notas e rascunhos instintivos

VVTNSS – Regression: Humana e sensorialmente, inicia-se a viagem ao centro do som através da realidade virtual.
Aires – Faith Thirst Glitter Alone: Uma máquina terrena mas espacial que nos transporta num vai e vem entre o útero e a lua, a serenidade e a euforia.
Cucina Povera – Resin: A “cristalização do tempo” de uma forma etérea e eclesiástica. De cor de âmbar, como no Convento.
i-ne-s – Oxidized: O passar do tempo pelo objecto inanimado que se torna animado pelas mudanças que surgem com a “húmida atmosfera”. Deterioração.
Galtier – Fog Containers: A cor que não existe. A simplicidade visual que contrasta a materialização da vida e da morte. Percepção eléctrica acuminada que se debruça sobre o que outrora foi.
Lachrin – Potesne Me Audire: Na introdução faz-se notar o medo. Apesar do caminho ser dessemelhante, partilhamos o local de chegada. A Tragédia assemelha-se ao assassinato do Imperador numa noite de tempestade com um culminar incógnito. O Sacrifício faz antecipar uma luta para a chama da clareza.
Kuthi Jin – Foreign Crate: Envolvência erosiva. Um tapete sonoro que não foge dos pés: está em cada ser humano e em cada partícula que o rodeia.
Bliss Currency – Untitled: Uma injecção de ansiedade humana. O confronto entre o antes e o depois, entre a irracional acção e a miserável consequência. Uma amálgama de acontecimentos em direcção à limpeza mental. O figurativo que se torna abstracto seduzindo a inquietação.
Herbert Quain – Fitting Boxes: A inquietação veio reduzir-se a destroços fundidos à tranquilidade do som. A catártica destruição resultante da humanidade e a lucidez da natureza a coexistir.
Evitceles – Coil Dialogue: Abstracto, monocromático, luz/sombra. A simples existência de duas dimensões que se torna complexa. Matérias opostas que se unem em uma só.

Um de mil x 3 – #1 – Junho 2020: Sara P. Mendes com João Lopes, Marianne e NANSEN Magazine

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Um de mil x 3 é a rubrica da Etérea que pretende dialogar e explorar a comunicação e a crítica de arte sem limites, mas com um olhar especialmente dedicado a novos projectos que surgem em território nacional, tendo em grande consideração as profundas diferenças que existem entre meios artísticos e culturais, as dinâmicas de contacto entre artista, consumidores, e restantes envolventes.

Mensalmente, exploramos três lançamentos/projectos/criações que reflictam o propósito da linha editorial da Etérea, a partir de pequenas reflexões a cargo tanto dos membros do Colectivo Grua como de convidados.


Devorar ilusões, Acordar da Primavera • Sara P. Mendes e João Lopes

Texto: Beatriz Passos

Das mãos de Sara P. Mendes e João Lopes nasce uma colaboração em formato de zine que nos revela através de traços monocromáticos a perspectiva muito pessoal de cada um, tendo como base os tempos de quarentena.

Ambos os autores transformam momentos menos bons em algo poético e mostram-nos que, apesar da saudade, é essencial relembrar que o que outrora vivemos são agora memórias felizes. Ao percorrer a zine, damos conta que o trabalho da Sara é como que um audio-guia que narra uma visita pela casa do João, pedindo-nos este um trabalho de interpretação mais abstracto.

A ligação entre as ilustrações de ambos, e o que faz desta uma zine colaborativa, materializa-se em forma de papel e também com o caminho que uma mensagem pode percorrer, mesmo tratando-se de uma simples receita de tacos vegetarianos.

No final, ficam as incertezas e o desejo doce pelo preencher do vazio que estes meses deixaram.


Escape • Marianne

Texto: Océane Monteiro

Coincidência ou não, o EP de Marianne Pinho, Escape, foi lançado numa altura em que, para muitos, a palavra escape foi, consciente ou inconscientemente, repetida vezes sem conta. O período de isolamento levou o ser humano a procurar várias possibilidades de fugir da realidade, algumas mais tóxicas que outras, entre o consumo ilícito de drogas, álcool, ou mesmo através de relações amorosas, uma tentativa de ebriedade constante.

Apesar da realização deste EP se ter passado muito antes do estado de emergência e sem qualquer ideia prévia do que iria acontecer, este transmite precisamente a urgência da fuga, a vontade de não ser real, de não pertencer a este mundo, o querer estar só mas não sozinho.

Para além da letra, a mistura de estilos musicais e de idiomas consegue transportar-nos para uma outra dimensão, fechando os olhos não sabemos ao certo onde estamos, o que estamos a ouvir, criando quase um abismo nas nossas cabeças, uma sensação de melancolia.

Entre as três faixas que compõem o EP, é em “Too much drama” que Marianne se destaca, com um registo mais oriental. Consegue colocar-nos num estado de espírito extasiado, fantasia noturna, que nos remete à perversão de uma saída à noite e a agonia do querer reencontrar o seu próprio espaço, o seu “eu” individual.

Escape é uma ferramenta estimulante emocional e sentimentalmente, onde a melodia é tão ou mais importante que a letra, uma mistura de culturas que se encontra no meio do pensamento e do acontecimento.


NANSEN Magazine

Texto: Vasco Completo

Embora esta segunda edição de NANSEN já tenha saído há pouco mais de 1 ano, a sua relevância perdura – e assim perdurará ainda por muitos anos. Muitas gerações passaram – e certamente muitas ainda passarão – pelas dificuldades que os movimentos migratórios carregam, em todas as dimensões imagináveis.

Esta mesma edição da revista alemã, focada na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, é narrada por Kalaf Epalanga, escritor e músico dos influentes Buraka Som Sistema, uma banda marcante a nível internacional, que juntou o kuduro a estilos de música de dança europeus. O artista aborda a sua relação com o país de origem, Angola, e os outros dois países em que viveu, Portugal e Alemanha – no qual reside actualmente. NANSEN – baptizada segundo o humanista Fridtjof Nansen que salvou muitas vidas da pesada 1ª grande Guerra Mundial – explora então o que é ser um migrante, a interacção cultural que estas dinâmicas envolvem, a relação com o país de origem ou a benevolente (e errada) visão de Portugal como “bom colonizador”.

Quando a revista saiu, muito tinha acontecido e muito estava por acontecer, no que à história do racismo diz respeito. Há estruturas que demoram muito a combater. 2020 tem demonstrado aos mais desatentos que ainda há muito por fazer no que toca a igualdade de direitos e ao racismo sistémico que está nas entranhas de sociedades pelo mundo fora. A melhor ferramenta que temos para combater estas estruturas é o conhecimento. Um bom primeiro passo? A leitura e procura de publicações que exploram este urgente assunto, como a NANSEN.

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