Festival Emergente: “uma das nossas missões é pôr o pessoal no palco a tocar”

entrevista

Texto: Beatriz Passos / Entrevista: Beatriz Passos e Vasco Completo • Fotografia: Ana Pereira

Emergiu numa uma noite de Santo António em 2018. Correu tão bem que no ano seguinte veio como Festival Emergente, um evento mais sério e com mais compromisso. Na sua primeira edição trouxe nomes como Pedro Mafama, Filipe Sambado e os Acompanhantes de Luxo, ou Cave Story – hoje já menos emergentes por parte do público, como sabemos.

Este ano, continuando fiel ao nome, no dia 3 de Dezembro, o Festival Emergente traz ao Capitólio artistas a aparecer na música portuguesa, com o espírito de missão de apoio ao que de novo se tem feito. Prezando a democratização de acesso ao palco – nestes tempos atípicos em que as oportunidades se vêem mais limitadas -, esta segunda edição chegou-nos ainda em Agosto em formato de open call (que terminou dia 5 de Outubro) do qual foram escolhidos pelo público, através de votação, dois artistas: Lana Gasparøtti e Cri The Coeur. A estes, juntaram-se Cíntia, Rui Rosa e Fugue., como convidados do Emergente, e Meta, Hause Plants e Dream People, seleccionados pelo júri do festival, composto este por Francisco Conde (Camaleão Associação Cultural), Tiago Castro (Rádio SBSR), João Araújo (Festival Rodellus), Carlos Gomes (Festival Emergente) e Vitor Belanciano (Jornal Público).

Mas o papel do público não acaba aqui: todos os artistas, exceptuando os três convidados, estão, no decorrer do festival, sob votação para o prémio de Melhor Concerto, ganhando a oportunidade de tocar no Festival Emergente e no Festival Rodellus, em Braga, ambos no próximo ano. Já o melhor Projecto Musical, eleito por este conjunto de jurados, ganha a possibilidade de gravar um álbum ou EP nos Estúdios Camaleão.

A quase um mês do Emergente ganhar vida dentro de portas do Capitólio, entrevistámos Carlos Gomes, director artístico e de produção do festival, que nos falou sobre as características desta necessária adaptação e nova abordagem do evento, a dinâmica de votação do público, e o panorama da música em Portugal.

LANA GASPARØTTI

CRI THE COEUR

No ano passado o festival funcionou sem este open call, foi só o Festival Emergente. Foi uma dinâmica um pouco diferente. Como foi a adaptação do festival da vossa parte para este ano?

• A ideia do festival no ano passado que supostamente era para ter continuado este ano – mas de certa forma até estamos muito contentes que isso não tenha acontecido porque estamos muito entusiasmados com esta ideia do open call – foi, de certa forma, na sua primeira edição constituir uma espécie de linhagem da nova geração da música portuguesa. Se tu atentares ao line-up, é uma coisa que de facto me orgulha bastante porque estão lá nomes que hoje em dia já não são assim tão emergentes quanto isso: o Filipe Sambado, o Pedro Mafama, Time for T, Cave Story. Depois estavam lá outros também completamente desconhecidos na altura, Ossos d’Ouvido, e mais uns quantos. Palmers, também, estou a lembrar-me. Isso foi muito interessante porque eu acho que se sentiu muito isso. Quer os próprios músicos, quer o público que esteve presente, acho que houve muito bom ambiente por volta dessa ideia que estava ali de facto uma representação possível (evidentemente podiam ser muitas outras) dessa linhagem da nova música portuguesa. Desde os mais emergentes aos menos emergentes, digamos assim. Essa foi a ideia do ano passado. Este ano isso, por um lado, não era possível porque os recursos financeiros eram muito mais reduzidos do que aqueles que tínhamos no ano passado, e, por outro lado nós também… Eu sei que é um pouco estúpido dizer isto desta forma, mas a verdade é que todos nós, perante certas dificuldades que temos na vida, acabamos por reinventar muita coisa. E assim aconteceu também, ou seja, nós percebemos que aquilo que fizemos o ano passado, dar continuidade não era possível este ano e, perante a possibilidade de cancelar o festival, dissemos: não, não vamos cancelar nada. Se uma das nossas missões é pôr o pessoal no palco a tocar, a fazer aquilo que mais gosta, pensámos que era isso também que tínhamos de fazer. Mas o problema é que nós, Emergente, temos um pouco esta exigência connosco próprios que é dar as melhores condições possíveis aos músicos. Achamos muito bonita, muito interessante, este ideia de… A malta nova não salta logo para um palco grande, muito bom e com todas as possibilidades técnicas. Isso porquê? Porque músicos com talento, músicos bons de facto, perante boas condições técnicas acabam por exponenciar esse talento. É uma coisa que no ano passado também sentimos muito com os excelentes concertos de bandas que praticamente não conhecíamos ou que o público também não conhecia, e queremos repetir um bocadinho essa experiência porque acho que foi uma das experiências mais gratificantes. Isso não foi possível, pagarmos cachês às bandas que nos apetecesse convidar. Então pensámos abrir um open call que por um lado tivesse um cachê simbólico para todas as bandas que fossem lá tocar, para que tivessem as despesas pagas, um cachê do concerto, e que fosse também, de certa forma, uma oportunidade para ver o que é que a malta anda aí a fazer, sobretudo nesta altura – também tem esse interesse especial. Ficámos muito contentes porque tivemos 49 bandas a concurso. Agora estamos metidos numa carga de trabalhos porque para além dos dois que são votados pelo público, nós vamos ter de escolher outros 3 desses 49 por um grupo de elementos do júri e depois ainda vamos convidar outros 2 – não sei se exactamente desses 49, se outras 2 bandas que nós achemos que faz sentido estarem naquele line-up. É isso que vai acontecer este ano: 7 bandas realmente emergentes que saltam, por um lado, do open call para o palco e, por outro lado, por convite nosso ou 2 desses 49 que nós queiramos ir buscar porque achamos que merecem.

Nesse sentido, a linha identitária do festival, a sua impressão digital, só alterou um bocadinho a sua dinâmica, porque a ideia do artista emergente até vai mais ao encontro disso, não é?

• Completamente. Para te ser franco, eu acho que o carácter do festival saiu reforçado, não é por acaso que chamámos ao open call “super emergentes”. Há mesmo pessoal – e nós vimos isso nas bandas que nos chegaram – que está naquela fase de gravação do seu primeiro EP. Se forem tocar o seu primeiro EP no Emergente, acho que é uma experiência brutal.

Claro, para quem está a começar é uma experiência incrível.

• Claro, ainda para mais nesta altura. Depois por outro lado (não sei se tiveste oportunidade de dar uma olhadela pelo pessoal), temos ali dois ou três casos que não são propriamente emergentes no sentido da ideia, e também mesmo no sentido do seu percurso, mas também achámos que nesta altura estar a fechar a porta àqueles que tiveram a iniciativa e a vontade de nos explicar “olha, nós somos malta que não está propriamente dentro dos critérios de idade que vocês definiram, mas gostávamos muito de ir tocar ao Emergente” (risos). Nós achámos que, a esses que tiveram coragem de nos escrever e explicar a história deles, não podíamos fechar as portas. De certa forma, há ali realmente alguma incoerência, mas também estamos um bocado cansados dessa história toda da coerência. Com algum controlo, estamos um bocadinho a lixar-nos para isso. A ideia de ter um regulamento foi para dar oportunidade àqueles que são verdadeiramente mais jovens e que têm menos oportunidades neste momento. Mas também achamos muito interessante, e de certa forma, enche-nos a alma e o coração, pensar que há uma banda no norte do país e que de repente vê o open call e “ih, gostávamos imenso de ir lá tocar”… “porra, temos mais que 35 anos, não podemos”… Eish, quer dizer…

Claro, é uma altura para abrir excepções de uma maneira positiva e não negativa.

• Sim. Eu pessoalmente, falei também com o pessoal, mas eu pessoalmente não tenho muita coragem para fazer essas coisas porque acho que sobretudo neste momento em que nós estamos a viver, se há coisa de que eu não quero fazer parte é de pôr limitações a pessoas.

Ainda bem, é bom sinal. Já falaste um bocadinho sobre isso, mas após o open call, existiu também alguma selecção da vossa parte ou todos os concorrentes que eram elegíveis participaram na escolha do público?

• Sim, na verdade, sim. E, mais uma vez, pelas mesmas razões. Eu diria que, se calhar, havia 3 ou 4 casos que até [deram] alguma dificuldade. Ou seja, nós de certa forma até contribuímos para que eles cumprissem os critérios de elegibilidade aconselhando, dialogando, às vezes também sendo um pouco mais exigentes com as coisas que estavam a enviar – mesmo em relação aos vídeos, por exemplo. Na verdade, sim, acabámos por aceitar todos porque a qualidade média é bastante boa, acho eu. E também, mais uma vez, apesar evidentemente de todos nós – quer o júri, quer organização do Emergente -, termos os nossos critérios estéticos e termos uma ideia do que é realmente bom e do que não é, acho que ter esse tipo de apreciação num open call não é a melhor das atitudes porque as pessoas podem evoluir, o seu trabalho pode evoluir e eu particularmente não me sinto muito à vontade com essa espécie de castração que infelizmente acontece muito por aí. Também é uma coisa das quais eu não quero fazer parte. A ideia aqui é ajudarmos, é contribuirmos de facto para que as pessoas possam evoluir no seu trabalho e, para isso, trabalhamos nós também para abrir essa possibilidade. Foi isso que fizemos, com muito gosto.

Num mundo já com tantas negas, estás a tentar trazer um lado mais positivo, não é?

• Eu acho que às vezes as bandas até ficavam surpreendidas com a atitude (risos) porque não estavam à espera. Nós enviávamos respostas “ó malta, há que melhorar este vídeo” (gargalhadas), “Porque nós até conseguimos entender, mas não se esqueçam que isto é para ir a votação” (risos). Coisas assim do tipo. Nós tivemos um bocado esta atitude para o positivo em relação ao material que ia chegando. Quando sentíamos que era importante, vá. Mas também são casos pontuais, 3 ou 4 situações.

Noutro assunto, o público continua a ter também um grande peso no decorrer do festival com a eleição do melhor concerto super Emergente, por exemplo. Como irá funcionar essa dinâmica no próprio dia?

• Isso foi uma coisa em que pensámos porque, dada esta situação em que nos encontramos, estamos a correr sérios riscos de não ter público (risos). Enfim, lá estaremos de qualquer das formas, nós e as bandas. Estamos, de facto, também a montar a possibilidade da edição live streaming como foi anunciado, com muito risco da nossa parte, mas acho que efectivamente vai ser possível. Como é que vai ser a dinâmica? Nós temos dois prémios neste concurso. Temos o prémio para o melhor concerto, que vai ser atribuído à melhor banda das 7 que actuarem. Menos as 2 convidadas, se houver 2 bandas convidadas que foram extra open call, essas duas não poderão ser votadas. Se forem as 7 do open call, sim, todas poderão ser votadas. Nessa altura será um sistema de votação que nós definimos, em que todos votam, ou seja, vota o público, vota o júri e podem votar as pessoas que estão em casa ou em qualquer lugar, a ver o live streaming. Esse sistema de votação é um sistema de pontos. O 1º tem 5 pontos, o 2º tem 3, e o 3ª tem 1, de forma a que com toda a pontuação cruzada, não haja nenhum dos factores de pontuação que seja determinante: nem a votação do júri vai ser determinante, nem a votação do público. Outra situação é o melhor projecto musical e esse, sim, é só escolhido pelo júri. Requer um critério mais selectivo, ouvir os outros temas das bandas. Nós pedimos, para além do vídeo que está no site do Festival Emergente para votação, mais 3 a 5 temas. Por um lado para garantimos que as bandas tinham realmente temas para tocar e por outro lado para nós próprios podermos ter uma percepção mais abrangente do que é o seu universo musical e podermos perceber qual o interesse que está ali como estético, como também o know-how dos instrumentos, da capacidade de compor. Isso sim, vai ser um critério mais selectivo. E depois, essa banda ganha a possibilidade de gravar um EP ou um álbum, conforme o momento do seu percurso, nos estúdios do Camaleão e o melhor concerto ao vivo estará para o ano também no palco do Emergente e no palco do Rodellus, que é um festival no norte do país em que o carácter do line-up é muito semelhante ao nosso, são bandas emergentes, embora eles já estejam num patamar mais à frente, ou mais abrangente, porque já têm muitas bandas internacionais. Nós temos muita admiração por essa malta porque já vão na 5ª edição. De facto, o festival é super bom, é super interessante, é super curtido. É gente boa e super curtida, mesmo, muito abertos. Estamos super contentes porque também não é uma coisa muito normal, haver parcerias entre festivais. Nós tivemos esta ideia, falámos uns com os outros e vai acontecer. Eles também são parte do júri: um dos elementos da organização do Rodellus, para puxar a brasa à sua sardinha, digamos, para dizerem “epá, não, mas eu gostava que esta banda viesse ao nosso festival” (risos).

Do que vimos das bandas, participam muito do território do país e íamos perguntar se existe a possibilidade de eventualmente realizar o festival fora de Lisboa ou haver algum tipo de evento que seria fora e, neste caso, essa parceria com o Rodellus já cobre um pouco essa…

• Exacto. O Rodellus já é a forma que nós encontrámos, quer nós quer eles, de concretizar isso de forma bastante rápida. Os dois festivais existem, portanto, em 2021 a banda que for eleita o melhor concerto poderá tocar nos dois. Em vez de teres só um gig, já tens dois. Uma coisa que também nos orgulha bastante em relação a este open call, é o que tu dizes: apareceu gente de todo o lado. Agora não tenho aqui a lista à minha frente, mas por acaso fi-la aqui há uns tempos [e temos muitas partes do país] representadas neste open call, o que é muito interessante, não foi aquela coisa normal de ser só bandas de Lisboa de todo o lado: no Alentejo, do Centro, do Norte, do Interior, do Litoral… Isso também é muito positivo, acho eu. É um bom sintoma, vá.

Claro que sim. Quanto menos bipolarizado – que é sempre aquela centralização entre Lisboa e Porto – melhor, quanto mais pudermos descentralizar estas coisas, tanto em termos de iniciativas de concertos e festivais, como de trazer também artistas mais de fora, ou pelo menos dar-lhes a palavra, é sempre… Só se tem a ganhar, na verdade.

• Felizmente é uma coisa que também já acontece muito em Portugal. Há sítios específicos em Portugal onde há muita actividade deste tipo de bandas, desta música emergente. Estou a lembrar-me Barcelos, Aveiro… São lugares onde tu realmente tens muitas, muitas bandas, algumas delas que já têm percursos feitos e sobejamente conhecidos porque já tocaram em N festivais pelo país fora e, muitas delas, também já fizeram percursos no estrangeiro. Isso felizmente já era uma realidade antes de aparecer isto tudo.

As bandas, os artistas que estão a lutar pela presença no Festival Emergente através do voto do público são maioritariamente masculinos. A que achas que se deve esta menor adesão de artistas femininas? Tens alguma opinião sobre isso?

• Tenho. Já o ano passado essa questão se colocou e, por um lado, acho que existe de facto um desequilíbrio entre a quantidade de bandas que existem, maioritariamente de pessoas do sexo masculino e de pessoas do sexo feminino. Isso é um dado à partida. A razão porque as bandas com miúdas não apareceram no open call: não sei, transcende-me. Não faço a menor ideias, mas de facto há, por exemplo, alguns casos neste open call muito interessantes. Também não vou agora estar aqui a citar nomes para não estar a dizer o que penso sobre essas situações. Nesta altura, que o open call ainda está aberto, acho que temos todos oportunidade, eu e o júri, de pensarmos sobre isso mais para a frente. Mas há de facto casos muito interessantes de mulheres neste open call. Eu penso que se calhar vamos conseguir encontrar um equilíbrio maior do que aquele que existe neste momento no universo de bandas do open call no line-up do festival. Pelo menos eu espero que sim e confesso que isso é uma das minhas preocupações. Acho que é muito importante nesta altura e no mundo em que nós vivemos para de facto dar oportunidades a todos de uma forma não discriminatória, seja qual for o tipo de discriminação: de sexo, de género, de raça, de proveniência, de origem cultural, social, o que seja. Estou-me nas tintas para isso. Se acontecer alguma coisa desse tipo, não é porque não estamos preocupados com isso, é porque não conseguimos fazer melhor. É uma pergunta muito pertinente e acho que faz todo o sentido e é como te digo, nós vamos tentar de facto, obviamente não pondo o critério da qualidade nunca atrás dos outros porque achamos que isso é uma coisa que tem de prevalecer, estamos a falar de música. O que é bom, é bom e o que não é, não é. Não é por uma pessoa ser mulher e outra ser homem que nós vamos passar a preferir ter lá uma pessoa do sexo feminino só para representar o sexo feminino. Não acho que isso faça muito sentido.

Claro, como disse, o ponto da questão estava longe de ser esse [do vosso critério] porque é mesmo uma coisa que é transversal na indústria da música.

• Infelizmente também creio que sim. Mas acho que essas perguntas são sempre importantes e acho que também é importante nós todos pensarmos sobre essas questões e termos respostas para elas efectivamente. Não escamotearmos a questão e não a contornarmos de uma forma qualquer que não tenha nenhuma espécie de critério, não é de todo a nossa intenção e a nossa ideia.

Onde vos leva este espírito de missão do festival e quais são os desejos futuros para o Emergente?

• Uma das coisas que temos a certeza é que queremos continuar com este open call porque, como te disse, estamos a achar que a experiência é muito gratificante para todos, para as bandas primeiro que tudo e para nós também que o estamos a organizar. Nós estamos verdadeiramente entusiasmados com isto e na altura em que criámos o festival, e depois a plataforma no site, até… Ficámos bastante excitados, devo dizer-te. Não estávamos à espera de um reacção tão boa. Não estávamos à espera também que a coisa desenvolvesse duma forma tão interessante. Eu já não vejo a votação há dois, três dias mas acho que já vamos para aí em seis mil votos, o que é fantástico. Ah, ainda fizemos uma coisa (se calhar mais louca, mas é para isso que aqui estamos), que foi encerrar a plataforma de votação e voltar a abri-la. Não sei se vocês sabem desse pormenor, mas nós abrimos a plataforma de votação e apercebemo-nos passado um dia e meio que aquilo já ia em cinco mil votos e que havia ali qualquer coisa que não era normal. Ou seja, a plataforma de votação era muito facilmente… era possível votares várias vezes e muito facilmente numa banda. Nós percebemos muito rapidamente. E tivemos a coragem – felizmente que a tivemos – de encerrar aquilo e durante dois, três dias encontrar uma solução que fosse, pelo menos, muito mais justa, que é o caso. Tu só podes votar registando o teu mail. Eventualmente podes criar contas de email, é um facto, e nós já vimos no mails… Nós temos acesso à mailing list e já vimos que isso aconteceu, mas aconteceu de uma forma que não é significativa na votação das bandas. Depois, na realidade também não podes imputar responsabilidade às bandas. Na verdade nunca sabes se aquilo foi uma ideia de alguém da banda ou se foi ideia de um amigo (risos). Portanto, temos de aceitar as imperfeições do sistema, e de facto as pessoas não se conseguirem conter e quererem tanto, tanto, tanto ir lá que se calhar uma vez ou outra fazem assim uma falcatruazita qualquer. Mas neste momento parece-nos que a votação é justa, estamos atentos a isso. Isto só para dizer que realmente o open call é uma coisa que nós queremos que continue. O que estamos aqui a perspectivar para o ano é que a coisa seja um pouco a mistura das duas coisas. Por um lado que tenhamos uma parte de line-up, se tivermos possibilidades económicas para isso e também se o mundo entretanto evoluir para qualquer coisa mais fluida do que está neste momento. A ideia será ter uma parte das bandas convidadas por nós e com critérios que tenham a ver com o line-up, que faz um determinado sentido, e depois ter o open call aberto também neste formato, com 5 bandas a saltarem directamente do open call para o palco. Depois temos de decidir se as misturamos, ou se fazemos um dia para o open call e um dia para as outras bandas… Não sei, há aqui muitas questões em aberto. Mas no fundo é isso, retomar o formato do ano passado: dois dias, voltarmos a esse formato com os pés na terra e não querermos já crescer de uma forma que não seja depois sustentável. É voltar ao formato do ano passado, dos dois dias, e ter qualquer coisa como 15, 16 bandas em palco.

A última pergunta que eu tenho é uma coisa que também já falámos no início, mas segundo uma entrevista que fizeram com a SBSR FM, a democratização das escolhas das bandas com os super emergentes deve-se à necessidade de adaptação à situação mundial actual, claro. Para fechar, como consideras as condições actuais de apoio à música em Portugal?

• Eu não sou, por razões que não cabem nesta entrevista, a melhor pessoa para falar disso de uma forma clara e com conhecimento de causa. A minha chegada à música foi uma chegada, apesar de tudo, relativamente recente e não sou profundamente conhecedor da situação mais no sentido profissional das dinâmicas da música em Portugal. Percebo que há muita dificuldade, claro, pelo contacto regular que tenho com os músicos e também como programador e organizador, percebo que essa dificuldade existe. Percebo que neste momento há um fosso muito maior entre aquilo que é o mainstream e aquilo que é este mercado, esta dinâmica das bandas emergente, acho que esse fosso se acentuou com esta situação. A mim custa-me muito perceber, e de certa forma revolto-me bastante quanto a isso, como é que continua a haver tanto dinheiro para nomes consagrados da música. Claro que todos nós precisamos de trabalhar, claro que o que os músicos gostam é de tocar, e mesmo que sejas um músico mainstream continuas a querer fazer isso e a fazer a tua vida porque é a tua vida, a tua vida é a música. Obviamente que quando tu estás em cima do palco é onde tu estás melhor, em princípio. Mas realmente fico um bocadinho revoltado porque percebo que há muito investimento… Tem muito a ver também com a capacidade desses artistas conseguirem captar um determinado público seguro que  rentabilize minimamente o investimento que tem de ser feito para os concertos poderem acontecer. Portanto, há aqui toda uma cadeia que faz com que os espectáculos pequenos de músicos pouco conhecidos acabem por ser muito pouco ou nada rentáveis nestas condições e, portanto, praticamente tenham deixado de existir. Esta questão, por exemplo, que ultimamente aconteceu do circuito de clubs se ter unido em função de uma associação, é muito reflexo disso, da percepção da incapacidade de lutarmos, cada um de nós, sozinho, contra isto. É uma iniciativa super de salutar e que eu aplaudo evidentemente. Realmente é uma forma de tentar contrariar neste momento circunstâncias muito difíceis de trabalho para essas casas que anos e anos e anos estiveram a desenvolver um público, que já tinham o seu público próprio. Uma banda vai tocar a um determinado espaço e mesmo que a banda não tenha esse público que encha aquele espaço, o próprio espaço enche para ver aquela banda porque as pessoas já sabem que se aquela banda vai àquele espaço é porque vale a pena irmos lá ver a banda, é porque é boa. Porque já há um critério de selecção tão forte que as pessoas já identificam o espaço com a qualidade daquilo que vai lá acontecer. Isto é uma coisa que neste momento está a ser posta em causa. Há montes de casas a que nos habituámos a ir, montes de clubes, de espaços que neste momento estão fechado, que não têm programação e que não podem fazer nada, ou podem fazer muito pouco. Aqueles que conseguiram sair do sítio onde estavam para fazer coisas fora de portas, com grande mérito e grande coragem também, mas são muito poucos. Estamos numa situação de facto muito difícil e que eu acho que ainda vai durar, francamente. Sou um optimista e estou sempre a lutar para que as coisas corram o melhor possível, mas a verdade é que não me parece que as coisas tão rapidamente vão melhorar assim de uma forma muito significativa. Adorava que isso acontecesse, mas não me parece.

Catarina Molder – OPERAFEST Lisboa: “Nunca quis fazer um festival de nicho para público especializado”

entrevista

Por: Vasco Completo • Fotografia: OPERAFEST Lisboa

“Dos grandes clássicos, à ópera de vanguarda, ao encontro de todos os públicos, com formatos variados, apresentados maioritariamente ao ar livre, com a grande missão de projectar esta forma de arte total no futuro, o OPERAFEST nasce num ano particularmente exigente, mas de alma e coração, para oferecer e emoção da ópera a todos!”. É este o mote do novo Festival dedicado à música operática em Portugal, que decorre entre 21 de Agosto a 11 de Setembro em vários espaços de Lisboa, como o Jardim do Museu de Arte Artiga ou as Carpintarias de São Lázaro.

Com os objectivos de enriquecer a produção operática a nível nacional e de cultivar um interesse mais generalizado por este género tão relevante, o OPERAFEST Lisboa apresenta uma programação diversificada e atenta à criação contemporânea desta música – particularmente no concurso de ópera contemporânea, a Maratona Ópera XXI (divida em duas partes- I e II). O festival conta ainda com a Tosca de Puccini – sobre a qual a programação gravita –, com uma Gala de Ópera, Cine-óperas e com a ímpar Rave Operática.

A ópera, embora figure como uma das músicas mais ricas da história, gradualmente viu o seu público tornar-se um meio de nicho, e está na intenção do OPERAFEST diminuir o tamanho do muro entre esta cultura e um meio mais popular.

A Grua conversou com Catarina Molder, directora geral e artística do festival, sobre o OPERAFEST e as dinâmicas e ideias por trás do festival. O seu olhar realista, mas motivador, é motor para esta máquina se mover.

Os bilhetes para o OPERAFEST Lisboa 2020 podem ser adquiridos na BOL.

Design: Rita António

Como vês o panorama da música operática em Portugal actualmente? Com que olhos vês o que se está a fazer em Portugal comparativamente ao que se faz noutros países europeus ou mesmo a nível global?

• Lisboa é a capital e Portugal o país de toda a União Europeia que menos ópera produz. Existe um preconceito generalizado na maioria dos teatros portugueses e das chamadas artes performativas contemporâneas face à ópera, por puro desconhecimento. O nosso único teatro de Ópera, O Teatro Nacional de São Carlos, além de ter perdido nas últimas décadas capacidade de investimento e peso no projecto artístico, tem revelado ausência de estratégia, que a tutela não questiona nem exige, novamente por desconhecimento de causa. O São Carlos devia ser um agente catalisador da mudança de paradigma, fomentando a proliferação da ópera em Portugal, com temporadas paralelas noutros equipamentos da cidade e do país, com outros formatos, apostando no talento nacional, em parcerias estratégicas internacionais, na divulgação da ópera portuguesa, na renovação de repertório e de públicos, um serviço educativo com objectivos bem definidos… enfim, o básico que se deve exigir a uma instituição com financiamento público. No Porto, o próprio Teatro Nacional de São João, construído como Teatro de Ópera (na altura, as grandes produções iam primeiro ao Porto e só depois ao S. Carlos em Lisboa) devia ter uma cota de ópera na sua temporada, potenciando o talento e excelentes cantores, músicos e agrupamentos da cidade do Porto e da Região Norte do país, sem oportunidades de trabalho – novamente ausência estratégica da tutela.
Enfim, um ciclo vicioso: quanto menos se faz, menos se quer fazer, quanto menos se sabe, menos se consegue fazer. A própria dgartes não tem uma subcategoria de ópera nos concursos. Tem de se concorrer via música, quando a música é uma arte abstracta e a ópera é toda ela concreta – uma forma de arte que abarca todas as outras e é altamente especializada. Até o novo circo e artes de rua, têm uma categoria… Só criar uma categoria de ópera, aumentando subsequentemente as cotas de produção, já seria um passo em frente. Dando alguns exemplos, e sem falar de países ricos com enorme tradição, nem nos principais festivais de ópera do mundo, mas: a nossa vizinha Espanha, que tem capacidade de investimento e sabe usar o dinheiro com estratégia, tem 21 teatros de ópera e vários Festivais de dedicados ao género. Alguns países de Leste, com uma capacidade de investimento mais limitada, potenciam com grande inteligência os recursos na promoção de ópera, artistas e compositores nacionais, com excelentes resultados. Quem tem pouco dinheiro, tem de conhecer muito bem o meio, o mercado local e internacional e inventar mundos do nada, e isso só com conhecimento, criatividade e paixão. É isso que o OPERAFEST LISBOA representa. Um Festival absolutamente inovador, que pretende chegar a todos os públicos, que cruza tradição e vanguarda, que aposta no talento nacional a todos os níveis, no futuro da ópera e em cruzamentos múltiplos, à conquista de novos públicos, que é tão urgente para a ópera, cristalizada no passado. Com um orçamento mínimo, em que 65% vem de retorno de bilheteira e de investimento directo da ópera do Castelo, que produz o evento, conta com algum apoio da CML, com um subsídio da dgartes para o concurso Maratona Ópera XXI, que foi o gatilho para tudo o resto vir a acontecer e estamos sem dúvida a arriscar o nosso capital para fazer serviço público. O Operafest pretende estrategicamente trabalhar em múltiplas frentes. Mais de 50% dos nossos colaboradores são jovens até aos 25 anos e todos remunerados, e coloca finalmente Lisboa e Portugal na rota de Festivais de ópera de Verão Internacionais, com um projecto que marca a diferença.

A música erudita contemporânea tem sido usufruída por um meio de nicho, até certo ponto. Está nas intenções do festival dar a conhecer alguma desta música (mais ou menos conhecida) a um público mais vasto e variado?

• Sem dúvida, queremos de todo afastar a ideia de ópera para um nicho especializado. Queremos que todo o público, com gostos variados, venha à descoberta das propostas das novas gerações de compositores. Queremos que os compositores treinem para apurar o seu processo criativo. Queremos estimular novo repertório, tão urgente, e envolver novos criativos. Abrir o formato à vida de hoje. Tem de haver mais produção da ópera contemporânea, mais diversidade nas propostas, mais ligações com o mundo e o público de hoje. A ópera, tem de seguir o modelo eclético e ultradinâmico do cinema, que foi a forma de arte total de contar histórias que passou do palco para o ecrã. Os grandes compositores de ópera como o visionário Wagner, mas também Puccini, já seguiam uma narrativa muito cinematográfica na forma de contar a história. Nesse sentido, foi para nós essencial no processo de selecção do concurso, a força dos libretos propostos e, claro, a aptidão dos compositores para escreverem para cena e para o canto, e também o facto da ópera ser avaliada na sua fase final como espectáculo, por um júri de várias áreas distintas e pelo próprio público. Todos os compositores receberam bolsas e o vencedor ganhará o Prémio Carlos de Pontes Leça – uma encomenda no valor de 5000 euros para uma ópera de maior fôlego, a apresentar em edições futuras.

Em que consiste a Rave Operática? Parece ser o âmago da intenção transversal do festival. Há aqui algum interesse na intercepção entre diferentes meios musicais?

• A rave operática funde o mundo pop, com a ópera e culmina com a micro-ópera “orgásmica” Prazer da Ana Seara. Inicialmente queria fazer um espectáculo/festa com a loucura e o dramatismo da ópera e o frenesim da música disco, mas veio o Covid19 – a segurança de todos é essencial. Portanto a loucura vai estar lá – mas com distanciamento e lugar marcado –, o espectáculo e o dramatismo também, com homenagens a dois astros que misturaram o pop e a ópera, Klaus Nomi e Nina Hagen; e misturas líricas variadas, onde assistiremos ao original e depois à mistura. Ainda há outras propostas surpreendentes. Materializa-se no palco, o que comecei na minha série televisiva Super Diva, ópera para todos, com 3 temporadas na RTP2, em que uma das rúbricas de maior sucesso foi as Misturas Líricas, onde convidei músicos de todos os quadrantes musicais, para retrabalhar trechos de ópera e foi fantástico.

Fala-nos um pouco sobre as óperas encomendadas que vão estear no festival.

• A única ópera encomendada pelo OPERAFEST foi a micro-ópera Prazer, em torno do orgasmo, à jovem talentosa compositora Ana Seara. Gosto que seja uma mulher a fazê-lo. A mulher, que durante tanto tempo na história da humanidade se viu privada de manisfestar o talento de compor, apanágio do macho, assim como viu o seu prazer sexual abafado em torno novamente do prazer masculino e da reprodução. Também representa ir à origem da nossa fonte de apoio sonoro, o diafragma que responde aos estímulos de dor e prazer, desde que nascemos. Os espasmos do choro, os gritos de prazer, vêm da mesma fonte que os cantores líricos treinam para sustentar o seu trabalho vocal, sempre ligada à emoção, daí a intensidade emocional sonora do canto lírico.
Embora não sejam encomendas, no concurso para novas óperas – Maratona Ópera XXI apresentamos 7 óperas em estreia absoluta divididas por Maratona I e II, que foram seleccionadas e depois compostas durante a quarentena pelos compositores Pedro Finisterra, Diogo da Costa Ferreira, João Ricardo, Miguel Jesus, Sara Ross, Fábio Cachão e Tiago Videira. Com enredos muito variados que retratam as relações humanas no amor e no poder, a ganância, a traição, a insatisfação amorosa, os impasses da vida conjugal, a tirania da tecnologia na vida das pessoas, temas actuais e intemporais, na pluralidade de diferentes vozes e formas de compor. Todas estas óperas em língua portuguesa e interpretadas também por cantores portugueses de várias gerações, dirigidas pela maestrina Rita Castro Blanco, com a encenação de António Pires.

O festival tem a duração de quase um mês. Este período de tempo, mais alongado em relação a outros festivais, deve-se à tipologia da programação ou é uma forma de abranger um maior número de participantes com as devidas medidas de segurança?

• Tem a ver com a tipologia do Festival de ópera. No mercado mundial dos Festivais de Ópera de Verão esta duração é relativamente normal, porque só assim é possível apresentar uma programação variada e abrangente, e, claro, dependendo da capacidade de execução versus financiamento. Por outro lado, cada espectáculo de ópera tem uma preparação morosa e muito custosa. Um papel principal de uma ópera não pode ser cantado diariamente e ininterruptamente, se não “rebenta-se” com o cantor e com o resto da equipa. Ao contrário do teatro, a ópera tem de ter récitas mais espaçadas no tempo.
Também, como trabalhamos ao ar livre e apresentamos espectáculos e não concertos, precisamos da noite, para se fazer luz. Por outro lado, queremos que o público que vá ver a Tosca, venha à maravilhosa gala do tenor em ascensão mundial, pela primeira vez em Lisboa, Rodrigo P. Garulo e que possa ainda conhecer a nova ópera portuguesa, na Maratona Ópera XXI; que usufrua das conferências por Maria Filomena Molder e Rui Vieira Nery; venha ao Cine-ópera e ainda experimente a Rave operática. E para isso os eventos não se devem sobrepor!

Porque escolheste a Tosca de Puccini para ser a órbita sobre a qual o festival gravita?

• Pretendi criar um festival que cruzava tradição e vanguarda, porque em todas as artes e na vida, vimos de uma tradição e passado riquíssimo que nos formou, que nos inspirou e que nos permite ver o futuro. A vanguarda que anula o passado não é vanguarda: é procura de originalidade vã. A vanguarda vai atrás buscar impulso e dá um mortal para a frente. Preocupa-me muito o futuro da ópera, este impasse de viver do passado. É urgente renovar, estimular novo repertório. Portanto, o gatilho do OPERAFEST foi o concurso de ópera contemporânea – Maratona Ópera XXI. Mas, era necessário dar escala ao Festival, ir à tradição e apresentar um grande clássico. A Tosca de Puccini, foi uma ópera visionária, um thriller operático. É já um filme, que poderia ser feito por Hitchcock 50 anos mais tarde. Apresenta a primeira heroína operática moderna. Para além de ser uma das óperas de repertório mais emblemáticas é a 3ª ópera mais vista de sempre. E é ainda uma ópera perfeita para introduzir alguém a este género e tem tudo: paixão, mistério, crime e a música mais sublime, e ainda acresce o facto de Lisboa não a ver há mais de 10 anos. Pareceu-me um título perfeito. Nunca quis fazer um festival de nicho para público especializado, gosto de misturar, de cruzar, o passado, o presente, o futuro, repertórios e gostos. Para mim, e no meu trabalho enquanto artista ou directora artística, o ecletismo é essencial. Na cine-ópera que apresentamos em parceria com a grande distribuidora alemã Unitel, voltamos a apostar nos ícones de tradição, com intérpretes estratosféricos, referências estruturantes que os habituiées adoram revisitar e os iniciados têm de descobrir.

Mariana Rebelo: A maquilhagem não tem regras, não tem género, não tem idade, não tem classe social.

entrevista

Por: Océane Monteiro • Fotografia: Mariana Rebelo

“E a partir do momento em que se deixam as “regras” para trás,

torna-se um momento de expressão muito especial”

Qual será a diferença entre gastar uma certa quantidade de dinheiro em canetas, numa mesa gráfica, num sintetizador, num piano ou numa palete de sombras? Porque é que numa era em que existe uma variedade imensa de formas de expressão artística a maquilhagem continua a ser considerado, por muitos, algo superficial?

Grande parte dos utilizadores de maquilhagem consideram-se criativos, mas apenas uma minoria tem o à-vontade de usar a maquilhagem de modo não tradicional, ou mais irreverente no dia-a-dia. Este medo de fazer e utilizar o que se quer vem, em parte, do facto de a maquilhagem ainda não ser verdadeiramente tratada como uma forma de expressão artística, como a música ou a pintura, por exemplo, são. Podemos sentir estranheza com uma ilustração ou um género musical específicos, no entanto, esses artistas não são ostracizados como poderiam ter sido num passado de limitações estilísticas mais restritas. Quando a expressão individual passa pelo uso de maquilhagem, ou até mesmo roupa, as regras parecem mudar. O género já é, de repente, relevante e fazer looks extravagantes pode ser um sinal de futilidade e uma chamada de atenção.

Tal como expressamos quem somos, o nosso ser, através de outras artes, e as utilizamos como uma forma de terapia, o mesmo acontece com a maquilhagem. 

O argumento comum contra o uso diário da maquilhagem é o facto de poder ser usada enquanto “máscara”, uma aparente auto-estima que poderá ser falsa. No entanto a percepção do uso de maquilhagem tem vindo a ser alterada gradualmente, e o uso de cosméticos começa a deixar de ser apenas para um uso rotineiro, mas também como forma de arte que pode ser utilizada de variadíssimas formas, sem regras estabelecidas.

A maquilhagem tem um papel bastante versátil na sociedade: para alguém mais sóbrio, será usada de maneira simples, para corrigir imperfeições; para outros a face é uma tela pronta para uma obra de arte, uma expressão do seu ser e uma experiência que acaba por ser terapêutica. 

À conversa com Mariana Rebelo, uma ávida utilizadora dos cosméticos enquanto forma de arte, percebemos a importância que os mesmos têm para além do simples uso diário para o embelezamento.

Quando surgiu o teu interesse pela maquilhagem?

• Comecei por me interessar na maquilhagem quando tinha cerca de 13 anos. Na altura não me maquilhava, mas foi aí que comecei a interessar-me. Basicamente comecei por ver vídeos no YouTube e também desenhava modelos e rostos. Demorou algum tempo até começar a maquilhar-me a mim própria. Muitas pessoas começam ao ver a sua mãe a maquilhar-se, por exemplo, e começam a usar a sua maquilhagem, mas a minha mãe nunca se maquilhou… então tive de lhe pedir para me comprar uma base quando eu tinha 14 anos e foi aí que começou a jornada.

Começou desde cedo por ser um modo de expressão artística da tua pessoa ou apenas como forma de esconder as ditas “imperfeições”? Quando decidiste que te querias expressar através da maquilhagem e porquê? 

• Inicialmente começou mesmo por influência dos vídeos e das adolescentes que seguia na altura, comecei a aprender e quis aplicá-lo em mim. A minha rotina começou por aplicar base e com o tempo foi evoluindo, mas não foi propriamente para “esconder imperfeições” foi mais por ver as outras a fazê-lo e quis começar também. Honestamente, com o tempo é que, inevitavelmente, se tornou algo que aumentava a minha confiança ao esconder as imperfeições e só mais tarde é que comecei a divertir-me com a maquilhagem. Não posso dizer que não me sinto mais confiante quando uso, admito que me dá uma certa sensação de empoderamento que me ajuda imenso socialmente e no trabalho! Mas, com o tempo, sem dúvida que a maquilhagem tornou-se muito mais do que isso. Primeiro é uma rotina e um momento que tenho comigo própria, de conexão e de “preparação” para os dias. E a partir do momento em que se deixam “as regras” para trás, torna-se um momento de expressão artística muito especial para mim. Então, ao fim ao cabo comecei a expressar-me através da maquilhagem de uma forma muito natural. 

A maioria dos utilizadores de maquilhagem seguem um procedimento específico. Consideras que esse processo, aparentemente quase obrigatório, pode ser um entrave à expressão artística individual? Os chamados “looks” deixam de ser válidos? 

• Eu trabalho para uma marca de maquilhagem. Uma coisa que eu digo sempre é: “não há regras para a maquilhagem!”. No entanto, é uma questão complexa porque por um lado acredito mesmo que não há regras, mas por outro deparo-me constantemente com clientes que me pedem conselhos, e aí vem a parte técnica que acaba por cair nas “regras”. Então acho importante haver uma parte técnica e uma parte artística, acho que estas duas partes se complementam. Considero importante saber a parte técnica para depois ter a possibilidade de executar a parte artística, tal como nas artes tradicionais (pintura, escultura, ilustração, entre outras), nas quais começamos pela técnica para nos dar uma abertura à nossa própria expressão.

Acho que hoje em dia este mundo tem imensas dimensões, tornou-se numa indústria de milhões, com influencers, marcas, redes sociais… o que faz, inevitavelmente, com que surja uma grande variedade de visões e expressões artísticas relativamente à maquilhagem.

Concluindo, creio que as regras nunca devem ser um entrave à expressão artística, mas que a técnica acaba por ter a sua importância.

Nas redes sociais parece cada vez mais natural usar looks berrantes, repletos de cor e efeitos. Sentes que no dia-a-dia é possível usar as mesmas sem se ser ostracizadx? 

• Como já disse, não creio que haja regras para a maquilhagem, por isso no meu dia-a-dia costumo maquilhar-me da forma que me apetece. E adoro ver os looks dxs outrxs. É muito importante apoiarmo-nos uns aos outros, especialmente numa indústria tão competitiva e tão complexa. No entanto é um assunto complicado… nesta era das redes sociais em que os estereótipos estão a ser quebrados, ocorrem muitas mudanças. Por exemplo, no mundo LGBT, a maquilhagem acaba por ser uma celebração. O celebrar da luta pela liberdade e igualdade de direitos. Vemos cada vez com mais frequência homens a usar maquilhagem abertamente. Assim como regras, a maquilhagem não tem género, não tem idade, não tem classe… E isso é lindo, mas infelizmente ainda estamos longe de atingir o objetivo. Ainda há muitas pessoas que não têm a mente aberta. Há dias em que me maquilho mais “fora do normal” e recebo olhares ou comentários e dou por mim muitas vezes a adaptar a minha maquilhagem ao “ambiente” em que vou estar. Eu sou uma mulher cis a usar maquilhagem, e mesmo assim posso vir a receber críticas, então às vezes penso em como será para as pessoas que sofrem de preconceito diariamente. A ideia de que alguém não pode sair à rua maquilhadx ou vestidx ou expressar-se da forma que quer deixa-me triste, e aqui em Portugal ainda há um longo caminho a percorrer. Apesar de ter vindo a mudar, cada um de nós tem de fazer o que consegue à sua própria escala para que cheguemos ainda mais longe, para que a maquilhagem seja considerada, globalmente, como um modo de expressão artística e consequentemente algo que TODXS podem usar sem qualquer tipo de julgamento.

Falas várias vezes de saúde mental no teu Instagram. Em que medida achas que a maquilhagem pode ter um papel imprescindível para ti e para os outros utilizadores em geral? 

• Para mim, e sei que para muitas outras pessoas também, é essencial para um bem estar interior. Como já disse anteriormente, o momento de me maquilhar é o momento em que estou comigo própria, a preparar-me para o dia e a encontrar-me, conectar-me. Por vezes torna-se difícil olhar para nós próprios, ou aceitarmos o nosso aspeto, e para mim o momento de me maquilhar vai além de esconder os defeitos, torna-se uma terapia. Acho que cada pessoa tem a sua terapia e a minha é a maquilhagem. 

Esta fase que estamos actualmente a viver e o isolamento a que a mesma obriga fazem com que a falta de tempo não seja uma desculpa. No entanto, é também muito fácil seguir o caminho da procrastinação. Como tens lidado com toda esta crise? A tua arte ajuda-te a ultrapassar os tempos mortos ou ter motivação é difícil? 

• Por um lado, em teoria, a quarentena seria uma altura óptima para produzir, mas na verdade é difícil a parte mental de tudo isto. Sigo muitxs makeup artists que têm produzido todos os dias e admiro-xs muito! No entanto também há muitxs artistas (como eu) que entram numa rotina de não produtividade e de procrastinação. É algo que diariamente tenho de tentar combater. Acaba por ser um processo e algo que ainda estou a trabalhar. Sem dúvida, é difícil manter-me motivada, surgem sempre questões ou falta de confiança, especialmente num mundo que tem tanta variedade. Mas é muito importante acreditar em nós próprios e quando eu não acredito tenho sempre pessoas à minha volta que me motivam e apreciam o que eu faço. Isso também é bastante importante. 

Em relação a esta crise, o mais essencial é mantermo-nos seguros, optimistas e tentar o máximo para nos focarmos na nossa saúde mental, nas pessoas que amamos e sem dúvida na nossa arte. No fundo, no que nos faz sentir bem.

Ema Ribeiro – Ó! Galeria: O futuro é o online e temos de nos adaptar e aceitar

entrevista

Por: Beatriz Passos • Fotografia: Ó! Galeria

À data da entrevista com Ema Ribeiro, fundadora da Ó! Galeria — que se tem dedicado à ilustração com lojas no Porto e em Lisboa — ainda não tinha sido comunicado o fecho do espaço na capital. A pandemia afectou todos de diferentes formas e infelizmente o sector da cultura é dos mais afectados neste panorama.


Tendo tido a fotografia como paixão (ESAP) e a cerâmica como base (Escola Artística Soares dos Reis), Ema Ribeiro cria a Ó! no Porto em 2009 para dar uma casa a “amigos e colegas sem forma digna de expôr ilustração”. Actualmente, a galeria tem representados trabalhos de ilustradorxs nacionais e internacionais, como Clara Não, Yara Kono, Agathe Sorlet, Bina Tangerina ou Marcos Martos.


Como, segundo Ema, “o futuro é o online e temos de nos adaptar e aceitar esse facto”, a Ó! colocou-se em linha com o virtual, ao oferecer várias opções neste formato durante o período de confinamento. Entre as quais, pode nomear-se ter entregue as “chaves virtuais” das suas redes sociais a cada ilustrador durante 3 dias, havendo uma apresentação e visita guiada pelos seus trabalhos através de publicações, tendo como plataforma o instagram — esta iniciativa da galeria continua até dia 31 de Maio. Outra forma de apoio aos artistas, mesmo tendo sempre a distância como condição, foi a criação de um Gift Card que pode ser oferecido por quem quiser a quem quiser. Neste caso, as compras são inevitavelmente feitas através da loja online. Também foi criada a “CURATED BY:”, uma iniciativa que leva convidados a escolher ilustrações do site e criar uma exposição nas stories do instagram da galeria. A primeira convidada foi a Capicua e deu o nome “Mulheres” à exposição que se deu no dia 9 de Abril.


Para além dos projectos dedicados a este período particular, a Ó! organiza exposições temporárias, a par com todas as ilustrações presentes em loja que se encontram para venda com preços acessíveis.


O fecho da loja lisboeta é a demonstração clara da dificuldade de subsistência de projectos culturais em período de pandemia. Sem rede de segurança, as artes passam para segundo plano ao nível económico e inevitavelmente, há necessidade de fechar portas. Porque a galeria foi fundada no norte do país, e estando localizada no mítico bairro artístico, na Rua Miguel Bombarda no Porto (palavras da fundadora), foi possível manter uma dinâmica mais forte.


O futuro vê-se mais brilhante, com o sol reflectido no vidrado das peças cerâmicas da recente loja dedicada a esta expressão artística milenar, com workshops e um espaço de co-work. Enquanto ainda é aconselhado estar em casa, já existe uma página dedicada à Ó! Cerâmica no instagram.

Como fundadora da Ó!, fala-nos um pouco sobre o teu background. Qual o caminho que percorreste até chegar à inauguração da primeira loja? O que levou à sua criação?

• Quando andei, no secundário, na Escola Soares dos Reis, comecei com o curso técnico-profissional de cerâmica. Na Faculdade de Belas Artes do Porto, estive em Artes Plásticas – Escultura, e depois na ESAP em fotografia. A fotografia foi a área em que me mantive durante alguns anos, completamente apaixonada, e abri a minha primeira galeria, a Lab.65, dedicada exclusivamente à fotografia em 2006. Passou um ano e fechei com o coração destroçado. Não sendo uma pessoa conhecida no meio, o projecto não vingou. A convite da FNAC reestruturei o projecto da Lab.65 e tornei-o menos elitista, ou seja, criei uma plataforma onde, ao ter séries mais extensas de fotografias de autores portugueses, conseguia ter valores bastante atractivos que possibilitavam a compra de fotografia por qualquer um. Passado dois anos, terminei o projecto que se sediou no CCbombarda na Rua Miguel Bombarda no Porto. Ao mesmo tempo iniciei a Ó! em 2009, um teste num espaço super interessante chamado Bidonville, também no CCB. A ideia de juntar ilustração, objectos de autor e desenho surge pela falta de espaços do género acessíveis ao público. Na altura a Dama Aflita era o único projecto de ilustração aberto. Amigos e colegas sem forma digna de expôr ilustração foi sem dúvida um dos principais motivos para que a Ó! nascesse.

Porquê Ó! Galeria? De onde surge este nome?

• Ó! é uma expressão de admiração, de espanto que eu uso com frequência. A ilustração faz-me dizer muitos Ó!’s 🙂

Qual é a adesão dos artistas em relação à galeria? Recebem propostas diariamente ou é a própria galeria que vai à procura de novos artistas para representar?

• Recebemos propostas diárias e constantes. Infelizmente não temos espaço para acolher mais ilustradores ou ilustrações. A maior parte dos ilustradores que fazem parte neste momento da Ó! foi convidada por mim.

Qual a tua opinião em relação aos formatos feira e galeria? Consideras que a feira é um complemento para a apresentação em espaço de galeria? A galeria complementa a feira?

• A galeria dá ao ilustrador oportunidade de mostrar o trabalho de uma forma dignificante e cria a oportunidade de ter quase como um portfólio em espaço aberto para um público bastante abrangente. O lado comercial também é certamente importante porque a promoção dos trabalhos dos ilustradores é feita em contínuo no espaço físico e em todas as plataformas virtuais (redes sociais, site, mailing list). Uma feira penso que complementa os rendimentos do ilustrador e dá-lhe oportunidade de se apresentar ao público directamente. Alguns ilustradores não se sentem à vontade para fazer feiras, ou já não pensam nesse formato; outros têm muito prazer em contactar directamente com o público ou simplesmente precisam de aumentar os rendimentos.

Sendo a ilustração uma das expressões que, por vezes, fica um pouco à margem relativamente às outras, como achas que será o seu futuro daqui para a frente? 

• Não sinto que esteja à margem, até pelo contrário. Nesta altura a ilustração está muito próxima do público porque são os ilustradores que estão a chegar através das redes sociais às casas de muitos. Com actividades promovidas em conjunto, com workshops, com animações… nunca se viu tanta actividade nas redes e tanta ilustração a mostrar o que vai na alma dos próprios autores e do público. Acho que o futuro sem dúvida é o online e temos de nos adaptar e aceitar esse facto.

Sabemos que vem aí uma Ó! dedicada à cerâmica. O que nos podes adiantar em relação a este conceito de loja? 

• A ideia de ter uma galeria de cerâmica vem desde há algum tempo. À medida que os anos foram passando, projectos de cerâmica começaram a aparecer entre os ilustradores de formas incrivelmente originais. Uma nova vaga refrescante dentro da cerâmica artística, sem dúvida que me motivou a querer, mais uma vez, criar uma espaço que dignificasse esta área. A galeria vai ter uma parte expositiva e outra de loja, tal como na Ó! ilustração, completando-se com os workshops e co-work.

A Ó! Lisboa vive muito do turismo, de todas as pessoas que pela porta passam e ficam curiosas acerca do que está dentro das duas portas de madeira — no caso de Lisboa. Como foi lidar com a progressiva falta de público conforme o avanço da situação de pandemia em Portugal e, posteriormente, o fecho das portas? E o caso do Porto?

• A Ó! Lisboa fechou agora no final de Abril em consequência desta crise. Há que ser pragmático e tomar as decisões mais duras atempadamente para que não vá tudo por água abaixo.

Foram 5 anos de luta constante para manter as portas abertas, em que na realidade  só no ano passado pudemos suspirar de alívio. Entretanto, já neste início de ano, sentiu-se uma quebra e com a pandemia foi para nós o tempo de dizer adeus à capital e continuar a luta cá em cima, na casa mãe. Lisboa é uma cidade dura para um negócio. O Porto é uma cidade onde temos a vantagem de estar situados no bairro das artes. As pessoas que gostam de arte no geral sabem onde podem ir para ver exposições, explorar o quarteirão cheio de projectos muito interessantes. Torna tudo mais fácil. Acredito que no Porto, por mais difícil que seja, sendo a nossa casa, é mais fácil manter. Mas claro que se as pessoas não comprarem, a Ó! fecha também as portas por cá.

Rubi Amarelo: A natureza do encontro entre o ingénuo e o real

entrevista

Por: Grua • Fotografia: Direitos reservados

A primeira entrevista da Grua para a Etérea é dirigida a Rubi Amarelo, ilustradora e licenciada em Design Gráfico pela ESAD, nas Caldas da Rainha. O seu traço singular, os temas e abordagens ao corpo feminino diferenciam-na de muitos pares dentro do meio. Para além da ilustração nos mais variados suportes, Rubi trabalha também o barro transformando o seu imaginário em três dimensões.

Rubi Amarelo é convidada a estrear a categoria de entrevistas desta nova plataforma pois tem vindo a acompanhar a Grua desde o seu início, tendo participado na primeira edição da Feira de Ilustração que teve lugar na Mouraria no dia 27 de Maio de 2017. Perto de voltar, em 2020, Rubi Amarelo foi também a artista convidada a desenhar o cartaz para a segunda edição deste evento que não resistiu – como todos os outros – à pandemia no início de Março. Agora, Rubi volta para falar um pouco de si e do seu trabalho, do seu percurso e do que a entusiasma criativamente.

• Podes conhecer mais do seu trabalho através do Behance, Instagram ou Facebook.

Conta-nos um pouco sobre o teu percurso. Quando e como iniciou a tua inclinação para a ilustração e para as artes visuais?
• Desde pequenina! A melhor maneira de me entreter foi sempre estando rodeada de cores, tintas e tudo o que pudesse dar uma nova vida, desde criar instrumentos a passar horas a colorir livros e a copiar os desenhos. O segredo foi nunca parar. 

Apesar de não ser uma pergunta de resposta fácil, consegues explicar como desenvolveste a tua individualidade estilisticamente? Traço, cores, temas abordados…
• Bem, nas minhas ilustrações passo sempre muito de mim. É um momento de entrega. Com isso, as cores vivas e os motivos florais e da natureza aliam-se à magia do corpo feminino, são linhas que se unem e que me movem. É quase um encontro entre o ingénuo e o real.

Como tens conseguido conciliar a Rubi Amarelo com outras questões da tua vida pessoal e/ou profissional? 
• Com a vontade de querer mais! Às  vezes formam-se barreiras que parecem um quebra-cabeças. Com um part-time para conciliar e um estúdio (que é o meu quarto), nem sempre é fácil. Quando isso acontece tento abstrair-me ao máximo, e um passeio resolve sempre. A hora certa há-de chegar. E o pensamento positivo precisa de estar sempre presente!

Existem artistas que podes nomear como tuas principais influências? 
• São imensos! São muitas as referências. Mas os primeiros, Matisse, Gauguin … Sou péssima com nomes, e atualmente há muita coisa boa a ser feita, cá e lá fora. Tudo acaba por ser uma referência a partir do momento que acordamos.

Já te surgiu algum projecto de colaboração multidisciplinar, de aliar as artes visuais à música, à dança, ao cinema, por exemplo? Terias interesse ou já foi uma ideia que te passou pela cabeça?
• Já ilustrei alguns livros, uns editados outros à espera do momento certo. E é algo que adoro fazer, principalmente infantis! Adoro crianças e poder intervir na educação e no fomentar das ideias que criam, não podia ser mais gratificante e inspirador. Por outro lado, o mundo da moda e da fotografia são vertentes que me apaixonam mais de dia para dia.

Qual seria a tua colaboração de sonho?
• Acho que tenho varias!! Gosto de experimentar coisas novas e tenho muitas áreas em que gostava de trabalhar. Um mural? Uma colecção de roupa com as minhas ilustrações e ideias?  Provavelmente são estas as que andam mais nos meus pensamentos, mas existem muitas outras, com trabalho e sentimento qualquer colaboração pode ser e será boa.

És muito individualista com a tua criação, ou é-te costume pedir feedback e opiniões durante todo o processo?
• No momento da criação da ideia final preciso do meu espaço, fico isolada, preciso de ficar só, comigo mesma. Não consigo explicar. Depois disso, gosto sempre de pedir opiniões, perceber o que transmite e debater. 

Esta fase que estamos actualmente a viver, é muito complicada para todos os que integram o panorama artístico e cultural. A quarentena tem-nos afectado a um nível que ainda nos parece inimaginável. O que nos podes contar sobre o que tem sido a tua experiência e, fazendo uma viagem ao futuro, como achas que se processará tudo isto culturalmente?
• Não estou completamente de quarentena. Como trabalho a part-time num serviço indispensável ao tele-trabalho, a minha rotina tem sido trabalhar dia sim dia não. A logística inicialmente estava a ser complicada, a rotina era nova e os hábitos tinham de ser outros. Sou uma pessoa que por norma não consegue estar muito tempo em sítios fechados, acaba por ser um sufoco! Mas têm sido bastante positivos, estes dias, no sentido em que tenho criado imenso e estou a voltar a materiais antigos em busca de novas ideias e vontades. Foi o meu mecanismo de defesa, já que, como já tinha dito, o melhor momento de trabalho é sozinha. E partilho a casa com mais pessoas, amigos, que sem eles isto seria bem menos positivo. Acredito que com força e ânimo tudo possa melhorar e todos juntos do mesmo lado conseguiremos erguer de novo o bom que temos.