Labanta Braço – Um grito pela igualdade em forma de compilação

notícia

Por: Vasco Completo • Imagem: Rimas e Batidas – Diogo Carvalho (com design de João Bettencourt)



“Esta é a banda sonora de uma revolução social, um grito a favor da igualdade e a uma só voz — mesmo que encontremos por aqui artistas de géneros, idades, passados e contextos tão diferentes.” É sobre este mote, sobre esta incontornável temática que tanto tem marcado 2020 (mas não só…), que é criada a compilação Labanta Braço, lançada nesta sexta-feira.

A colaboração entre a revista digital de música Rimas e Batidas e o programa de rádio Raptilário, pensada por Alexandre Ribeiro e Ricardo Farinha, resulta em 37 faixas (nas quais o seu âmago se situa na batida) de 37 incríveis artistas negros. Nomes que habitam catálogos da Príncipe Discos, da Troublemaker Records, da Slow Habits, da Monster Jinx, mas que também marcam a edição independente. Nomes que são o passado, o presente e o futuro da música lusófona. São elxs: Alexandre Francisco Diaphra, Ângela Polícia, Arekkusu, Bambino, Ruben Carrington, Cachupa Psicadélica, DANYKAS DJ, Deejay Telio, Dellafyah, DJ ADAMM, DJ Lycox, DJ Marfox, Dj-Núcleo, DJ Satelite, Dotorado Pro, El Conductor, FRXH, Herlander, Jackpot BCV, Juzicy Beatz, Macaia, Mizzy Miles, Nástio Mosquito, Dj Nelassassin, Nelsoniq, Nidia, Dj Nigga Fox, Nzhinga, Oseias., Phoebe, Chullage, rkeat., Wake Up Sleep, Slow J, Studio BROS, Tóy Tóy T-Rex e Young Max.

Esta compilação solidária está disponível no Bandcamp. A partir do valor de 1€, as 37 músicas inéditas podem ser adquiridas em formato digital. O valor reverte inteiramente para a associação SOS Racismo. Posteriormente, o Rimas e Batidas e o Raptilário tratarão de fazer um novo desafio a diversas marcas: o dinheiro angariado até ao final da próxima Bandcamp Friday (campanha que já aqui referimos pela Etérea), a 4 de Setembro, deverá ser correspondido por essas empresas, para divisão equitativa entre a associação já referida e os artistas envolvidos na criação de Labanta Braço, uma histórica compilação no panorama português.

Catarina Molder – OPERAFEST Lisboa: “Nunca quis fazer um festival de nicho para público especializado”

entrevista

Por: Vasco Completo • Fotografia: OPERAFEST Lisboa

“Dos grandes clássicos, à ópera de vanguarda, ao encontro de todos os públicos, com formatos variados, apresentados maioritariamente ao ar livre, com a grande missão de projectar esta forma de arte total no futuro, o OPERAFEST nasce num ano particularmente exigente, mas de alma e coração, para oferecer e emoção da ópera a todos!”. É este o mote do novo Festival dedicado à música operática em Portugal, que decorre entre 21 de Agosto a 11 de Setembro em vários espaços de Lisboa, como o Jardim do Museu de Arte Artiga ou as Carpintarias de São Lázaro.

Com os objectivos de enriquecer a produção operática a nível nacional e de cultivar um interesse mais generalizado por este género tão relevante, o OPERAFEST Lisboa apresenta uma programação diversificada e atenta à criação contemporânea desta música – particularmente no concurso de ópera contemporânea, a Maratona Ópera XXI (divida em duas partes- I e II). O festival conta ainda com a Tosca de Puccini – sobre a qual a programação gravita –, com uma Gala de Ópera, Cine-óperas e com a ímpar Rave Operática.

A ópera, embora figure como uma das músicas mais ricas da história, gradualmente viu o seu público tornar-se um meio de nicho, e está na intenção do OPERAFEST diminuir o tamanho do muro entre esta cultura e um meio mais popular.

A Grua conversou com Catarina Molder, directora geral e artística do festival, sobre o OPERAFEST e as dinâmicas e ideias por trás do festival. O seu olhar realista, mas motivador, é motor para esta máquina se mover.

Os bilhetes para o OPERAFEST Lisboa 2020 podem ser adquiridos na BOL.

Design: Rita António

Como vês o panorama da música operática em Portugal actualmente? Com que olhos vês o que se está a fazer em Portugal comparativamente ao que se faz noutros países europeus ou mesmo a nível global?

• Lisboa é a capital e Portugal o país de toda a União Europeia que menos ópera produz. Existe um preconceito generalizado na maioria dos teatros portugueses e das chamadas artes performativas contemporâneas face à ópera, por puro desconhecimento. O nosso único teatro de Ópera, O Teatro Nacional de São Carlos, além de ter perdido nas últimas décadas capacidade de investimento e peso no projecto artístico, tem revelado ausência de estratégia, que a tutela não questiona nem exige, novamente por desconhecimento de causa. O São Carlos devia ser um agente catalisador da mudança de paradigma, fomentando a proliferação da ópera em Portugal, com temporadas paralelas noutros equipamentos da cidade e do país, com outros formatos, apostando no talento nacional, em parcerias estratégicas internacionais, na divulgação da ópera portuguesa, na renovação de repertório e de públicos, um serviço educativo com objectivos bem definidos… enfim, o básico que se deve exigir a uma instituição com financiamento público. No Porto, o próprio Teatro Nacional de São João, construído como Teatro de Ópera (na altura, as grandes produções iam primeiro ao Porto e só depois ao S. Carlos em Lisboa) devia ter uma cota de ópera na sua temporada, potenciando o talento e excelentes cantores, músicos e agrupamentos da cidade do Porto e da Região Norte do país, sem oportunidades de trabalho – novamente ausência estratégica da tutela.
Enfim, um ciclo vicioso: quanto menos se faz, menos se quer fazer, quanto menos se sabe, menos se consegue fazer. A própria dgartes não tem uma subcategoria de ópera nos concursos. Tem de se concorrer via música, quando a música é uma arte abstracta e a ópera é toda ela concreta – uma forma de arte que abarca todas as outras e é altamente especializada. Até o novo circo e artes de rua, têm uma categoria… Só criar uma categoria de ópera, aumentando subsequentemente as cotas de produção, já seria um passo em frente. Dando alguns exemplos, e sem falar de países ricos com enorme tradição, nem nos principais festivais de ópera do mundo, mas: a nossa vizinha Espanha, que tem capacidade de investimento e sabe usar o dinheiro com estratégia, tem 21 teatros de ópera e vários Festivais de dedicados ao género. Alguns países de Leste, com uma capacidade de investimento mais limitada, potenciam com grande inteligência os recursos na promoção de ópera, artistas e compositores nacionais, com excelentes resultados. Quem tem pouco dinheiro, tem de conhecer muito bem o meio, o mercado local e internacional e inventar mundos do nada, e isso só com conhecimento, criatividade e paixão. É isso que o OPERAFEST LISBOA representa. Um Festival absolutamente inovador, que pretende chegar a todos os públicos, que cruza tradição e vanguarda, que aposta no talento nacional a todos os níveis, no futuro da ópera e em cruzamentos múltiplos, à conquista de novos públicos, que é tão urgente para a ópera, cristalizada no passado. Com um orçamento mínimo, em que 65% vem de retorno de bilheteira e de investimento directo da ópera do Castelo, que produz o evento, conta com algum apoio da CML, com um subsídio da dgartes para o concurso Maratona Ópera XXI, que foi o gatilho para tudo o resto vir a acontecer e estamos sem dúvida a arriscar o nosso capital para fazer serviço público. O Operafest pretende estrategicamente trabalhar em múltiplas frentes. Mais de 50% dos nossos colaboradores são jovens até aos 25 anos e todos remunerados, e coloca finalmente Lisboa e Portugal na rota de Festivais de ópera de Verão Internacionais, com um projecto que marca a diferença.

A música erudita contemporânea tem sido usufruída por um meio de nicho, até certo ponto. Está nas intenções do festival dar a conhecer alguma desta música (mais ou menos conhecida) a um público mais vasto e variado?

• Sem dúvida, queremos de todo afastar a ideia de ópera para um nicho especializado. Queremos que todo o público, com gostos variados, venha à descoberta das propostas das novas gerações de compositores. Queremos que os compositores treinem para apurar o seu processo criativo. Queremos estimular novo repertório, tão urgente, e envolver novos criativos. Abrir o formato à vida de hoje. Tem de haver mais produção da ópera contemporânea, mais diversidade nas propostas, mais ligações com o mundo e o público de hoje. A ópera, tem de seguir o modelo eclético e ultradinâmico do cinema, que foi a forma de arte total de contar histórias que passou do palco para o ecrã. Os grandes compositores de ópera como o visionário Wagner, mas também Puccini, já seguiam uma narrativa muito cinematográfica na forma de contar a história. Nesse sentido, foi para nós essencial no processo de selecção do concurso, a força dos libretos propostos e, claro, a aptidão dos compositores para escreverem para cena e para o canto, e também o facto da ópera ser avaliada na sua fase final como espectáculo, por um júri de várias áreas distintas e pelo próprio público. Todos os compositores receberam bolsas e o vencedor ganhará o Prémio Carlos de Pontes Leça – uma encomenda no valor de 5000 euros para uma ópera de maior fôlego, a apresentar em edições futuras.

Em que consiste a Rave Operática? Parece ser o âmago da intenção transversal do festival. Há aqui algum interesse na intercepção entre diferentes meios musicais?

• A rave operática funde o mundo pop, com a ópera e culmina com a micro-ópera “orgásmica” Prazer da Ana Seara. Inicialmente queria fazer um espectáculo/festa com a loucura e o dramatismo da ópera e o frenesim da música disco, mas veio o Covid19 – a segurança de todos é essencial. Portanto a loucura vai estar lá – mas com distanciamento e lugar marcado –, o espectáculo e o dramatismo também, com homenagens a dois astros que misturaram o pop e a ópera, Klaus Nomi e Nina Hagen; e misturas líricas variadas, onde assistiremos ao original e depois à mistura. Ainda há outras propostas surpreendentes. Materializa-se no palco, o que comecei na minha série televisiva Super Diva, ópera para todos, com 3 temporadas na RTP2, em que uma das rúbricas de maior sucesso foi as Misturas Líricas, onde convidei músicos de todos os quadrantes musicais, para retrabalhar trechos de ópera e foi fantástico.

Fala-nos um pouco sobre as óperas encomendadas que vão estear no festival.

• A única ópera encomendada pelo OPERAFEST foi a micro-ópera Prazer, em torno do orgasmo, à jovem talentosa compositora Ana Seara. Gosto que seja uma mulher a fazê-lo. A mulher, que durante tanto tempo na história da humanidade se viu privada de manisfestar o talento de compor, apanágio do macho, assim como viu o seu prazer sexual abafado em torno novamente do prazer masculino e da reprodução. Também representa ir à origem da nossa fonte de apoio sonoro, o diafragma que responde aos estímulos de dor e prazer, desde que nascemos. Os espasmos do choro, os gritos de prazer, vêm da mesma fonte que os cantores líricos treinam para sustentar o seu trabalho vocal, sempre ligada à emoção, daí a intensidade emocional sonora do canto lírico.
Embora não sejam encomendas, no concurso para novas óperas – Maratona Ópera XXI apresentamos 7 óperas em estreia absoluta divididas por Maratona I e II, que foram seleccionadas e depois compostas durante a quarentena pelos compositores Pedro Finisterra, Diogo da Costa Ferreira, João Ricardo, Miguel Jesus, Sara Ross, Fábio Cachão e Tiago Videira. Com enredos muito variados que retratam as relações humanas no amor e no poder, a ganância, a traição, a insatisfação amorosa, os impasses da vida conjugal, a tirania da tecnologia na vida das pessoas, temas actuais e intemporais, na pluralidade de diferentes vozes e formas de compor. Todas estas óperas em língua portuguesa e interpretadas também por cantores portugueses de várias gerações, dirigidas pela maestrina Rita Castro Blanco, com a encenação de António Pires.

O festival tem a duração de quase um mês. Este período de tempo, mais alongado em relação a outros festivais, deve-se à tipologia da programação ou é uma forma de abranger um maior número de participantes com as devidas medidas de segurança?

• Tem a ver com a tipologia do Festival de ópera. No mercado mundial dos Festivais de Ópera de Verão esta duração é relativamente normal, porque só assim é possível apresentar uma programação variada e abrangente, e, claro, dependendo da capacidade de execução versus financiamento. Por outro lado, cada espectáculo de ópera tem uma preparação morosa e muito custosa. Um papel principal de uma ópera não pode ser cantado diariamente e ininterruptamente, se não “rebenta-se” com o cantor e com o resto da equipa. Ao contrário do teatro, a ópera tem de ter récitas mais espaçadas no tempo.
Também, como trabalhamos ao ar livre e apresentamos espectáculos e não concertos, precisamos da noite, para se fazer luz. Por outro lado, queremos que o público que vá ver a Tosca, venha à maravilhosa gala do tenor em ascensão mundial, pela primeira vez em Lisboa, Rodrigo P. Garulo e que possa ainda conhecer a nova ópera portuguesa, na Maratona Ópera XXI; que usufrua das conferências por Maria Filomena Molder e Rui Vieira Nery; venha ao Cine-ópera e ainda experimente a Rave operática. E para isso os eventos não se devem sobrepor!

Porque escolheste a Tosca de Puccini para ser a órbita sobre a qual o festival gravita?

• Pretendi criar um festival que cruzava tradição e vanguarda, porque em todas as artes e na vida, vimos de uma tradição e passado riquíssimo que nos formou, que nos inspirou e que nos permite ver o futuro. A vanguarda que anula o passado não é vanguarda: é procura de originalidade vã. A vanguarda vai atrás buscar impulso e dá um mortal para a frente. Preocupa-me muito o futuro da ópera, este impasse de viver do passado. É urgente renovar, estimular novo repertório. Portanto, o gatilho do OPERAFEST foi o concurso de ópera contemporânea – Maratona Ópera XXI. Mas, era necessário dar escala ao Festival, ir à tradição e apresentar um grande clássico. A Tosca de Puccini, foi uma ópera visionária, um thriller operático. É já um filme, que poderia ser feito por Hitchcock 50 anos mais tarde. Apresenta a primeira heroína operática moderna. Para além de ser uma das óperas de repertório mais emblemáticas é a 3ª ópera mais vista de sempre. E é ainda uma ópera perfeita para introduzir alguém a este género e tem tudo: paixão, mistério, crime e a música mais sublime, e ainda acresce o facto de Lisboa não a ver há mais de 10 anos. Pareceu-me um título perfeito. Nunca quis fazer um festival de nicho para público especializado, gosto de misturar, de cruzar, o passado, o presente, o futuro, repertórios e gostos. Para mim, e no meu trabalho enquanto artista ou directora artística, o ecletismo é essencial. Na cine-ópera que apresentamos em parceria com a grande distribuidora alemã Unitel, voltamos a apostar nos ícones de tradição, com intérpretes estratosféricos, referências estruturantes que os habituiées adoram revisitar e os iniciados têm de descobrir.