Carolina Celas ilustra a idealização dos dias perfeitos na Ó! Galeria

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Por: Beatriz Passos • Imagem: Direitos Reservados


Carolina Celas leva à Ó! Galeria a exposição “Another Random Day” na qual quer mostrar-nos “relatos e fragmentos de um caderno de viagem que idealizam o dia perfeito” através da ilustração. A inauguração tem hora marcada para as 15h do dia 31 de Outubro no número 61 da célebre Rua Miguel Bombarda, no Porto, cumprindo todas as normas aconselhadas pela DGS.

Licenciada em Design pela Universidade de Aveiro, Carolina Celas completou um mestrado em Comunicação Visual pelo Royal College of Art em 2015. O foco da artista na ilustração a nível académico dá-se na pós-graduação, realizada na Eina Barcelona, e é uma vertente que a acompanha até aos dias de hoje, trabalhando como freelancer tanto em território nacional como internacional. Dedicando uma especial atenção aos detalhes, Carolina descreve o seu trabalho como a matéria idealizada entre a ficção e a realidade, tendo em mente a relação entre o leitor e a componente gráfica do livro.

Em forma de convite, e de maneira a desvendar o ponto de partida de “Another Random Day”, a ilustradora deixa-nos um poema que também dá início ao nosso caminho casa/galeria.


“Se nada é maior
Do que o gosto de te ver,
Não são precisas palavras.
Concentra-te apenas nisto,
E apenas nisto…”

Isumi Shikibu (O Japão no Feminino, Tanka séculos IX a XI , Assírio & Alvim)

Ilustrações: VOA – Kids Magazine / Horizonte

Festival Singular esbate os contornos da categorização artística com 1ª edição

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Por: Beatriz Passos • Imagem: Direitos Reservados


No último trimestre do conturbado ano de 2020 nasce o Festival Singular, criação da Terceira Pessoa, que pretende desenvolver “formas de relação através do lugar e das artes.” Tendo como casa a Fábrica da Criatividade em Castelo Branco, a provocação e o questionamento tornam-se centrais nos objectivos desta estrutura, bem como as dinâmicas que levam a programação cultural para fora das grandes metrópoles, lutando assim contra a centralização da cultura.

A Terceira Pessoa é Ana Gil e Nuno Leão, mas também somos nós enquanto público. É um projecto que explora a criação artística em todas as suas vertentes definindo-se assim pluridisciplinar, não só abrangendo a arte, como também a filosofia e a ciência.

O Festival Singular tem início no dia 19 de Outubro com a residência artística de João Dias, integrada numa programação rica e transversal prometendo-nos “desenvolver objectos experimentais que escapam a qualquer tentativa de categorização imediata”, como referido na RACAB FM – Rádio Castelo Branco. A restante programação fica a cargo de Os Espacialistas, Sara Vaz e Marco Balesteros, Sonoscopia e dos colectivos LAMA – Laboratório de Artes e Média do Algarve e Um Coletivo. Para além da apresentação das criações artísticas, será realizado um workshop de dramaturgia denominado de en·sai·o com Ricardo B. Marques, no qual será treinado o olhar.

A entrada neste ciclo de criação artística não tem um valor máximo definido, sendo que o público pode dar o donativo no montante que desejar, com o mínimo de 5€. Ainda como ajuda à produção do festival, e todos os custos associados, a Terceira Pessoa criou uma chamada de apoio através de um donativo de 30€ que dará acesso a todas as actividades do Festival Singular. O valor pode ser doado através de transferência bancária ou MBway, aqui.

Para reserva de entradas: terceirapessoa2012@gmail.com

+ info aqui

Nuno Leão e Ana Gil. Imagem: Direitos Reservados

Ema Ribeiro – Ó! Galeria: O futuro é o online e temos de nos adaptar e aceitar

entrevista

Por: Beatriz Passos • Fotografia: Ó! Galeria

À data da entrevista com Ema Ribeiro, fundadora da Ó! Galeria — que se tem dedicado à ilustração com lojas no Porto e em Lisboa — ainda não tinha sido comunicado o fecho do espaço na capital. A pandemia afectou todos de diferentes formas e infelizmente o sector da cultura é dos mais afectados neste panorama.


Tendo tido a fotografia como paixão (ESAP) e a cerâmica como base (Escola Artística Soares dos Reis), Ema Ribeiro cria a Ó! no Porto em 2009 para dar uma casa a “amigos e colegas sem forma digna de expôr ilustração”. Actualmente, a galeria tem representados trabalhos de ilustradorxs nacionais e internacionais, como Clara Não, Yara Kono, Agathe Sorlet, Bina Tangerina ou Marcos Martos.


Como, segundo Ema, “o futuro é o online e temos de nos adaptar e aceitar esse facto”, a Ó! colocou-se em linha com o virtual, ao oferecer várias opções neste formato durante o período de confinamento. Entre as quais, pode nomear-se ter entregue as “chaves virtuais” das suas redes sociais a cada ilustrador durante 3 dias, havendo uma apresentação e visita guiada pelos seus trabalhos através de publicações, tendo como plataforma o instagram — esta iniciativa da galeria continua até dia 31 de Maio. Outra forma de apoio aos artistas, mesmo tendo sempre a distância como condição, foi a criação de um Gift Card que pode ser oferecido por quem quiser a quem quiser. Neste caso, as compras são inevitavelmente feitas através da loja online. Também foi criada a “CURATED BY:”, uma iniciativa que leva convidados a escolher ilustrações do site e criar uma exposição nas stories do instagram da galeria. A primeira convidada foi a Capicua e deu o nome “Mulheres” à exposição que se deu no dia 9 de Abril.


Para além dos projectos dedicados a este período particular, a Ó! organiza exposições temporárias, a par com todas as ilustrações presentes em loja que se encontram para venda com preços acessíveis.


O fecho da loja lisboeta é a demonstração clara da dificuldade de subsistência de projectos culturais em período de pandemia. Sem rede de segurança, as artes passam para segundo plano ao nível económico e inevitavelmente, há necessidade de fechar portas. Porque a galeria foi fundada no norte do país, e estando localizada no mítico bairro artístico, na Rua Miguel Bombarda no Porto (palavras da fundadora), foi possível manter uma dinâmica mais forte.


O futuro vê-se mais brilhante, com o sol reflectido no vidrado das peças cerâmicas da recente loja dedicada a esta expressão artística milenar, com workshops e um espaço de co-work. Enquanto ainda é aconselhado estar em casa, já existe uma página dedicada à Ó! Cerâmica no instagram.

Como fundadora da Ó!, fala-nos um pouco sobre o teu background. Qual o caminho que percorreste até chegar à inauguração da primeira loja? O que levou à sua criação?

• Quando andei, no secundário, na Escola Soares dos Reis, comecei com o curso técnico-profissional de cerâmica. Na Faculdade de Belas Artes do Porto, estive em Artes Plásticas – Escultura, e depois na ESAP em fotografia. A fotografia foi a área em que me mantive durante alguns anos, completamente apaixonada, e abri a minha primeira galeria, a Lab.65, dedicada exclusivamente à fotografia em 2006. Passou um ano e fechei com o coração destroçado. Não sendo uma pessoa conhecida no meio, o projecto não vingou. A convite da FNAC reestruturei o projecto da Lab.65 e tornei-o menos elitista, ou seja, criei uma plataforma onde, ao ter séries mais extensas de fotografias de autores portugueses, conseguia ter valores bastante atractivos que possibilitavam a compra de fotografia por qualquer um. Passado dois anos, terminei o projecto que se sediou no CCbombarda na Rua Miguel Bombarda no Porto. Ao mesmo tempo iniciei a Ó! em 2009, um teste num espaço super interessante chamado Bidonville, também no CCB. A ideia de juntar ilustração, objectos de autor e desenho surge pela falta de espaços do género acessíveis ao público. Na altura a Dama Aflita era o único projecto de ilustração aberto. Amigos e colegas sem forma digna de expôr ilustração foi sem dúvida um dos principais motivos para que a Ó! nascesse.

Porquê Ó! Galeria? De onde surge este nome?

• Ó! é uma expressão de admiração, de espanto que eu uso com frequência. A ilustração faz-me dizer muitos Ó!’s 🙂

Qual é a adesão dos artistas em relação à galeria? Recebem propostas diariamente ou é a própria galeria que vai à procura de novos artistas para representar?

• Recebemos propostas diárias e constantes. Infelizmente não temos espaço para acolher mais ilustradores ou ilustrações. A maior parte dos ilustradores que fazem parte neste momento da Ó! foi convidada por mim.

Qual a tua opinião em relação aos formatos feira e galeria? Consideras que a feira é um complemento para a apresentação em espaço de galeria? A galeria complementa a feira?

• A galeria dá ao ilustrador oportunidade de mostrar o trabalho de uma forma dignificante e cria a oportunidade de ter quase como um portfólio em espaço aberto para um público bastante abrangente. O lado comercial também é certamente importante porque a promoção dos trabalhos dos ilustradores é feita em contínuo no espaço físico e em todas as plataformas virtuais (redes sociais, site, mailing list). Uma feira penso que complementa os rendimentos do ilustrador e dá-lhe oportunidade de se apresentar ao público directamente. Alguns ilustradores não se sentem à vontade para fazer feiras, ou já não pensam nesse formato; outros têm muito prazer em contactar directamente com o público ou simplesmente precisam de aumentar os rendimentos.

Sendo a ilustração uma das expressões que, por vezes, fica um pouco à margem relativamente às outras, como achas que será o seu futuro daqui para a frente? 

• Não sinto que esteja à margem, até pelo contrário. Nesta altura a ilustração está muito próxima do público porque são os ilustradores que estão a chegar através das redes sociais às casas de muitos. Com actividades promovidas em conjunto, com workshops, com animações… nunca se viu tanta actividade nas redes e tanta ilustração a mostrar o que vai na alma dos próprios autores e do público. Acho que o futuro sem dúvida é o online e temos de nos adaptar e aceitar esse facto.

Sabemos que vem aí uma Ó! dedicada à cerâmica. O que nos podes adiantar em relação a este conceito de loja? 

• A ideia de ter uma galeria de cerâmica vem desde há algum tempo. À medida que os anos foram passando, projectos de cerâmica começaram a aparecer entre os ilustradores de formas incrivelmente originais. Uma nova vaga refrescante dentro da cerâmica artística, sem dúvida que me motivou a querer, mais uma vez, criar uma espaço que dignificasse esta área. A galeria vai ter uma parte expositiva e outra de loja, tal como na Ó! ilustração, completando-se com os workshops e co-work.

A Ó! Lisboa vive muito do turismo, de todas as pessoas que pela porta passam e ficam curiosas acerca do que está dentro das duas portas de madeira — no caso de Lisboa. Como foi lidar com a progressiva falta de público conforme o avanço da situação de pandemia em Portugal e, posteriormente, o fecho das portas? E o caso do Porto?

• A Ó! Lisboa fechou agora no final de Abril em consequência desta crise. Há que ser pragmático e tomar as decisões mais duras atempadamente para que não vá tudo por água abaixo.

Foram 5 anos de luta constante para manter as portas abertas, em que na realidade  só no ano passado pudemos suspirar de alívio. Entretanto, já neste início de ano, sentiu-se uma quebra e com a pandemia foi para nós o tempo de dizer adeus à capital e continuar a luta cá em cima, na casa mãe. Lisboa é uma cidade dura para um negócio. O Porto é uma cidade onde temos a vantagem de estar situados no bairro das artes. As pessoas que gostam de arte no geral sabem onde podem ir para ver exposições, explorar o quarteirão cheio de projectos muito interessantes. Torna tudo mais fácil. Acredito que no Porto, por mais difícil que seja, sendo a nossa casa, é mais fácil manter. Mas claro que se as pessoas não comprarem, a Ó! fecha também as portas por cá.