Um de mil x 3 – #5 Novembro 2020: Gaya Jiji, Em poucas palavras e Satha Lovek

um de mil x 3

Um de mil x 3 é a rubrica da Etérea que pretende dialogar e explorar a comunicação e a crítica de arte sem limites, mas com um olhar especialmente dedicado a novos projectos que surgem em território nacional, tendo em grande consideração as profundas diferenças que existem entre meios artísticos e culturais, as dinâmicas de contacto entre artista, consumidores, e restantes envolventes.

Mensalmente, exploramos três lançamentos/projectos/criações que reflictam o propósito da linha editorial da Etérea, a partir de pequenas reflexões a cargo tanto dos membros do Colectivo Grua como de convidados.


Mon Tissu Préféré – Gaya Jiji

Texto: Beatriz Passos

Março de 2011: uma mãe e três filhas vivem num prédio em Damasco na altura em que a cidade começa a sofrer bombardeamentos. Simultaneamente, uma mulher ocupa uma das casas no edifício e transforma-a num bordel clandestino.

Esta é a história de uma das filhas, Nahla, uma mulher que nos mostra o que é ser uma jovem adulta no meio do início da guerra na cidade de Damasco. Dividida entre os cenários casa/rua, a dualidade dos sentidos faz-se transparecer simultaneamente através de imagens oníricas do amor, que chegam a sobrepor-se à percepção da realidade.

Ao contrário da irmã mais nova, atenta aos acontecimentos políticos e sociais, Nahla mostra-se aparentemente apática ao início da guerra na Síria. A ambiguidade que caminha lado a lado com a personagem leva-a a tomar decisões que a deixam sozinha e, o que parecia inicialmente um sentimento de indiferença, culmina num ressentimento pela irmã mais velha – que lhe tira a oportunidade de deixar o país. Apesar da apatia inicial, na verdade o seu sonho sempre foi sair da Síria.

De forma muito peculiar, com uma sensibilidade selvagem e insconstante, Mon Tissu Préféré permite-nos viajar pelo imaginário de Nahla e transporta-nos pelo oscilar de emoções que surgem no decorrer da longa metragem, chegando até a causar-nos alguma inquietação.


Em poucas palavras

Texto: Diana Mordido Aires

Este texto conformou-se à primeira pessoa, e por isso tem de falar, mesmo que muito superficialmente de mim. De ti. Deles. De nós.

Numa frase recortada, com palavras contadas, convidei diferentes artistas a repensar no seu trabalho, para que nos pudéssemos aproximar de diferentes práticas artísticas, que estão a acontecer hoje, neste preciso momento. Eu, influenciada pelos dois dedos de conversa que troquei com estes autores, gosto de pensar que me tenho tornado uma nómada nestes imaginários, e por isso invejo-vos a vocês, e ao vosso olhar despido de referencias destas representações do mundo, que aos poucos e poucos se entranham em nós.

Numa frase recortada, despida de contexto, somos desafiados a ecoar na perspetiva do outro, num processo de construção de significados, atordoado pelo limite de palavras. Fui eu quem os convidou, admito. É por isso que me consigo rever nas suas palavras? Porque já os conhecia anteriormente? Ou será tudo isto um ciclo?

#1“Somos um colectivo de investigação e criação artística, em torno do território e as suas diferentes dimensões culturais, sociais e ambientais.”(21) West Coast

#2″Crio entre arte e educação para nunca deixar de estar olhos-nos-olhos com o outro e juntos seguirmos viagem.” (18) Ricardo Guerreiro Campos

#3″Sou uma insular obcecada com a natureza. É sem querer. Só sei comunicar através de meios artísticos. Ou quiçá estou iludida. Sou feliz.” (23) Margarida Andrade

#4″O meu trabalho enquanto autor serve como ferramenta para me alinhar com os meus valores. Procuro ser honesto.” (18) polivalente

#5″Procurar pelo espanto nos embates com o mundo para criar novos mitos na tecitura dos dias que estão por vir.”(20) Mónica Garcia


PT Malacca – Satha Lovek

Texto: Vasco Completo

É um trabalho invulgar no panorama nacional. Esta primeira afirmação não se prende com os géneros que categorizam o EP de estreia de Satha Lovek, projecto de Rúben Silva e João Coutinho, mas talvez com a temática associada a estes universos musicais.

Afirma-se pós-colonial, e é: o sample de voz de Kantigas Di Padri Sa Chang que surge logo no primeiro tema, “Mata-Kantiga”, retoma uma discussão que se mantém relevante – depois de tantos anos passados do ido 25 de Abril de 1974, muito há para se mudar na mentalidade deste país à beira mar plantado. Será isso que Satha Lovek quer expressar com música instrumental?

Talvez. O techno industrial, que é por si libertador, exercido em pistas de dança como forma de diálogo político e cultural, vê-se aqui preso em “Grago” a um compasso quaternário opressivo e sufocante. O nacionalismo tem duas (ou terá mais?) faces, mas delas podemos apenas retirar o pensamento animalesco de que tem de existir um opressor e um oprimido.

A beleza de PT Malacca não é só sentida nos pads e sintetizadores imersivos, contemplativos e harmónicos: está também nos espaços que existem entre o experimentalismo sónico mais dissonante, e os acordes sedosos e etéreos. “Ode To Malacca” demonstra-se, então, como a música que melhor aglutina todos estes ambientes que compõem o EP do duo, de IDM, drone, ambient, ou ainda free jazz. Entre o que parecem ser gravações de campo, algum processamento de samples e outros instrumentos, o duo trabalha o campo estereofónico com a liberdade de quem se desprende das amarras pela primeira vez. E fá-lo com tão belos ambientes e melodias…