Um de mil x 3 – #3 -Agosto 2020: FALU, Ebinum Brothers e Príncipe Discos

um de mil x 3

Um de mil x 3 é a rubrica da Etérea que pretende dialogar e explorar a comunicação e a crítica de arte sem limites, mas com um olhar especialmente dedicado a novos projectos que surgem em território nacional, tendo em grande consideração as profundas diferenças que existem entre meios artísticos e culturais, as dinâmicas de contacto entre artista, consumidores, e restantes envolventes.

Mensalmente, exploramos três lançamentos/projectos/criações que reflictam o propósito da linha editorial da Etérea, a partir de pequenas reflexões a cargo tanto dos membros do Colectivo Grua como de convidados.


FALU – Festival Artístico de Linguagens Urbanas

Texto: Rita Rosado

Com a ideia de criar um roteiro de cultura urbana – sendo esta conhecida por tratar temas sociais e contemporâneos – nasce o festival FALU, o primeiro festival de arte urbana das Caldas da Rainha. 

Os muros, as paredes e as fachadas são a melhor representatividade dos “destaques” propagados por todo o mundo e, pelos tempos sucedidos atualmente, a liberdade criativa encarrega-se apenas de artistas portugueses. Numa cidade onde existe um grande incentivo cultural e artístico, não só protagonizado pelos trabalhos do artista Bordalo Pinheiro, como também pela Escola Superior Artes e Design (ESAD), os seis murais idealizados em duas freguesias, com tema livre, procuram respeitar as referências identitárias da cidade. 

Pelos olhos de uma inquietação vivida por aquilo que acontece no mundo, à mistura com uma identidade forte vinda desta cidade, são apresentados nomes como Bordalo II, Add Fuel, Akacorleone, Daniel Eime e Nuno Viegas, que pretendem estimular a prática de outras vertentes artísticas da cultura urbana. No entanto, para além de se poder contemplar a verdadeira arte por parte destes artistas, foi possível dar voz aos mais emergentes, locais ou residentes. 

Numa introspeção pessoal, não é por acaso que isso acontece: FALU, tal como é mencionado pela organização do projeto, dá-se tanto pelo tão característico pénis das Caldas da Rainha, como também pela palavra falo, de falar/expressar. Não ficando pelo figurativo, mas sim pela exposição dada aos artistas que lutam pelo patriotismo, mostrando a sua arte “lá fora” com grande êxito, não apenas esteticamente falando, mas acima de tudo pela mensagem transmitida em todos os seus projetos. Mais do que isso, é elevar as oportunidades a TODOS, democratizando a nossa cultura, sendo este um projeto que, cremos, que se deveria considerar espelho para outras cidades. A arte urbana, a arte visual e plástica, o teatro, a música, a dança, a literatura… mais do que ontem, o hoje e o amanhã distanciam-se destas linguagens. Devemos agir, sempre.


To build a homeEbinum Brothers

Texto: Sara P. Mendes

Perdi-me num caminho que criei, encontrei-me em mim. Redescobri o que significa quando um movimento de braço me invoca subitamente equilíbrio. Quando um aperto e desaperto de corpos me aperta e desaperta a mim.

A arte não é senão um reflexo dos tempos, uma maneira de encontrar o caminho para casa, quando estamos perdidos em caminhos que criámos ou que criaram por nós.  E nesta procura de nos refletirmos no meio artístico os dois irmãos absorvem a natureza como um meio e um fim, criando um espelho do que dizem ver e sentir da natureza que os rodeia, uma percepção a que chamam “togetherness”.

Apercebemo-nos de que quando não existem oportunidades, inventam-se, quando não existem recursos, criam-se novas visões. Na procura desta ideia de “união” entre a arte e a natureza, procuramos a simplicidade; e tal como num livro que é escrito por dentro e transporta-nos para fora; também nos braços de Victory e Marvel somos transportados. 

Sonhamos com o futuro, com a nossa Casa. E para estes irmãos da Nigéria a Arte é um reflexo do caminho, e o caminho pode ser tudo o que temos, mas deixa-nos cada vez mais perto de casa.


Verão Dark Hope – Príncipe Discos

Texto: Vasco Completo

O corpo de trabalho da Príncipe Discos é dos mais incontornáveis da música portuguesa. A influência que tem tido em novos produtores e na impressão digital da electrónica nacional na última década alterou toda a paisagem sonora que conhecemos, mas também da que os outros (lá fora) conhecem de nós.

Entre melodias e samples soalheiros, as síncopas das batidas, que se apresentam com uma intensidade menor que o normal – intensidade típica de quem tem um copo gelado com uma bebida qualquer na mão, areia nos pés – não fogem à equação a que a Príncipe nos tem habituado, aliando como sempre técnicas de produção electrónica refinada a kicks possantes e tarolas dançadas, em forma de tarraxo, kizomba, batida, kuduro e tantos mais.

A editora portuguesa que voltou a merecer destaque na Pitchfork – que cedo abraçou as sonoridades mescladas que habitam a música da Príncipe pelas palavras de Philip Sherburne – já não lançava neste formato desde a celebrada compilação Mambos Levis D’Outro Mundo, de 2016. A relevância e crescimento da editora sente-se em várias dimensões, mas nota-se aqui, no crescimento do número de intervenientes nesta VA.

A esperança é o mote para esta compilação que sai no complexo e ímpar ano de 2020. Um ano que se apresenta sem qualquer precedente no que toca à pandemia, mas com precedentes demasiado evidentes quanto ao racismo entranhado na sociedade portuguesa. Vamos dançar a esperança e, como diz a própria Príncipe Discos, “vamos manter-nos focados na Mudança”.