Mariana Rebelo: A maquilhagem não tem regras, não tem género, não tem idade, não tem classe social.

entrevista

Por: Océane Monteiro • Fotografia: Mariana Rebelo

“E a partir do momento em que se deixam as “regras” para trás,

torna-se um momento de expressão muito especial”

Qual será a diferença entre gastar uma certa quantidade de dinheiro em canetas, numa mesa gráfica, num sintetizador, num piano ou numa palete de sombras? Porque é que numa era em que existe uma variedade imensa de formas de expressão artística a maquilhagem continua a ser considerado, por muitos, algo superficial?

Grande parte dos utilizadores de maquilhagem consideram-se criativos, mas apenas uma minoria tem o à-vontade de usar a maquilhagem de modo não tradicional, ou mais irreverente no dia-a-dia. Este medo de fazer e utilizar o que se quer vem, em parte, do facto de a maquilhagem ainda não ser verdadeiramente tratada como uma forma de expressão artística, como a música ou a pintura, por exemplo, são. Podemos sentir estranheza com uma ilustração ou um género musical específicos, no entanto, esses artistas não são ostracizados como poderiam ter sido num passado de limitações estilísticas mais restritas. Quando a expressão individual passa pelo uso de maquilhagem, ou até mesmo roupa, as regras parecem mudar. O género já é, de repente, relevante e fazer looks extravagantes pode ser um sinal de futilidade e uma chamada de atenção.

Tal como expressamos quem somos, o nosso ser, através de outras artes, e as utilizamos como uma forma de terapia, o mesmo acontece com a maquilhagem. 

O argumento comum contra o uso diário da maquilhagem é o facto de poder ser usada enquanto “máscara”, uma aparente auto-estima que poderá ser falsa. No entanto a percepção do uso de maquilhagem tem vindo a ser alterada gradualmente, e o uso de cosméticos começa a deixar de ser apenas para um uso rotineiro, mas também como forma de arte que pode ser utilizada de variadíssimas formas, sem regras estabelecidas.

A maquilhagem tem um papel bastante versátil na sociedade: para alguém mais sóbrio, será usada de maneira simples, para corrigir imperfeições; para outros a face é uma tela pronta para uma obra de arte, uma expressão do seu ser e uma experiência que acaba por ser terapêutica. 

À conversa com Mariana Rebelo, uma ávida utilizadora dos cosméticos enquanto forma de arte, percebemos a importância que os mesmos têm para além do simples uso diário para o embelezamento.

Quando surgiu o teu interesse pela maquilhagem?

• Comecei por me interessar na maquilhagem quando tinha cerca de 13 anos. Na altura não me maquilhava, mas foi aí que comecei a interessar-me. Basicamente comecei por ver vídeos no YouTube e também desenhava modelos e rostos. Demorou algum tempo até começar a maquilhar-me a mim própria. Muitas pessoas começam ao ver a sua mãe a maquilhar-se, por exemplo, e começam a usar a sua maquilhagem, mas a minha mãe nunca se maquilhou… então tive de lhe pedir para me comprar uma base quando eu tinha 14 anos e foi aí que começou a jornada.

Começou desde cedo por ser um modo de expressão artística da tua pessoa ou apenas como forma de esconder as ditas “imperfeições”? Quando decidiste que te querias expressar através da maquilhagem e porquê? 

• Inicialmente começou mesmo por influência dos vídeos e das adolescentes que seguia na altura, comecei a aprender e quis aplicá-lo em mim. A minha rotina começou por aplicar base e com o tempo foi evoluindo, mas não foi propriamente para “esconder imperfeições” foi mais por ver as outras a fazê-lo e quis começar também. Honestamente, com o tempo é que, inevitavelmente, se tornou algo que aumentava a minha confiança ao esconder as imperfeições e só mais tarde é que comecei a divertir-me com a maquilhagem. Não posso dizer que não me sinto mais confiante quando uso, admito que me dá uma certa sensação de empoderamento que me ajuda imenso socialmente e no trabalho! Mas, com o tempo, sem dúvida que a maquilhagem tornou-se muito mais do que isso. Primeiro é uma rotina e um momento que tenho comigo própria, de conexão e de “preparação” para os dias. E a partir do momento em que se deixam “as regras” para trás, torna-se um momento de expressão artística muito especial para mim. Então, ao fim ao cabo comecei a expressar-me através da maquilhagem de uma forma muito natural. 

A maioria dos utilizadores de maquilhagem seguem um procedimento específico. Consideras que esse processo, aparentemente quase obrigatório, pode ser um entrave à expressão artística individual? Os chamados “looks” deixam de ser válidos? 

• Eu trabalho para uma marca de maquilhagem. Uma coisa que eu digo sempre é: “não há regras para a maquilhagem!”. No entanto, é uma questão complexa porque por um lado acredito mesmo que não há regras, mas por outro deparo-me constantemente com clientes que me pedem conselhos, e aí vem a parte técnica que acaba por cair nas “regras”. Então acho importante haver uma parte técnica e uma parte artística, acho que estas duas partes se complementam. Considero importante saber a parte técnica para depois ter a possibilidade de executar a parte artística, tal como nas artes tradicionais (pintura, escultura, ilustração, entre outras), nas quais começamos pela técnica para nos dar uma abertura à nossa própria expressão.

Acho que hoje em dia este mundo tem imensas dimensões, tornou-se numa indústria de milhões, com influencers, marcas, redes sociais… o que faz, inevitavelmente, com que surja uma grande variedade de visões e expressões artísticas relativamente à maquilhagem.

Concluindo, creio que as regras nunca devem ser um entrave à expressão artística, mas que a técnica acaba por ter a sua importância.

Nas redes sociais parece cada vez mais natural usar looks berrantes, repletos de cor e efeitos. Sentes que no dia-a-dia é possível usar as mesmas sem se ser ostracizadx? 

• Como já disse, não creio que haja regras para a maquilhagem, por isso no meu dia-a-dia costumo maquilhar-me da forma que me apetece. E adoro ver os looks dxs outrxs. É muito importante apoiarmo-nos uns aos outros, especialmente numa indústria tão competitiva e tão complexa. No entanto é um assunto complicado… nesta era das redes sociais em que os estereótipos estão a ser quebrados, ocorrem muitas mudanças. Por exemplo, no mundo LGBT, a maquilhagem acaba por ser uma celebração. O celebrar da luta pela liberdade e igualdade de direitos. Vemos cada vez com mais frequência homens a usar maquilhagem abertamente. Assim como regras, a maquilhagem não tem género, não tem idade, não tem classe… E isso é lindo, mas infelizmente ainda estamos longe de atingir o objetivo. Ainda há muitas pessoas que não têm a mente aberta. Há dias em que me maquilho mais “fora do normal” e recebo olhares ou comentários e dou por mim muitas vezes a adaptar a minha maquilhagem ao “ambiente” em que vou estar. Eu sou uma mulher cis a usar maquilhagem, e mesmo assim posso vir a receber críticas, então às vezes penso em como será para as pessoas que sofrem de preconceito diariamente. A ideia de que alguém não pode sair à rua maquilhadx ou vestidx ou expressar-se da forma que quer deixa-me triste, e aqui em Portugal ainda há um longo caminho a percorrer. Apesar de ter vindo a mudar, cada um de nós tem de fazer o que consegue à sua própria escala para que cheguemos ainda mais longe, para que a maquilhagem seja considerada, globalmente, como um modo de expressão artística e consequentemente algo que TODXS podem usar sem qualquer tipo de julgamento.

Falas várias vezes de saúde mental no teu Instagram. Em que medida achas que a maquilhagem pode ter um papel imprescindível para ti e para os outros utilizadores em geral? 

• Para mim, e sei que para muitas outras pessoas também, é essencial para um bem estar interior. Como já disse anteriormente, o momento de me maquilhar é o momento em que estou comigo própria, a preparar-me para o dia e a encontrar-me, conectar-me. Por vezes torna-se difícil olhar para nós próprios, ou aceitarmos o nosso aspeto, e para mim o momento de me maquilhar vai além de esconder os defeitos, torna-se uma terapia. Acho que cada pessoa tem a sua terapia e a minha é a maquilhagem. 

Esta fase que estamos actualmente a viver e o isolamento a que a mesma obriga fazem com que a falta de tempo não seja uma desculpa. No entanto, é também muito fácil seguir o caminho da procrastinação. Como tens lidado com toda esta crise? A tua arte ajuda-te a ultrapassar os tempos mortos ou ter motivação é difícil? 

• Por um lado, em teoria, a quarentena seria uma altura óptima para produzir, mas na verdade é difícil a parte mental de tudo isto. Sigo muitxs makeup artists que têm produzido todos os dias e admiro-xs muito! No entanto também há muitxs artistas (como eu) que entram numa rotina de não produtividade e de procrastinação. É algo que diariamente tenho de tentar combater. Acaba por ser um processo e algo que ainda estou a trabalhar. Sem dúvida, é difícil manter-me motivada, surgem sempre questões ou falta de confiança, especialmente num mundo que tem tanta variedade. Mas é muito importante acreditar em nós próprios e quando eu não acredito tenho sempre pessoas à minha volta que me motivam e apreciam o que eu faço. Isso também é bastante importante. 

Em relação a esta crise, o mais essencial é mantermo-nos seguros, optimistas e tentar o máximo para nos focarmos na nossa saúde mental, nas pessoas que amamos e sem dúvida na nossa arte. No fundo, no que nos faz sentir bem.