Rubi Amarelo: A natureza do encontro entre o ingénuo e o real

entrevista

Por: Grua • Fotografia: Direitos reservados

A primeira entrevista da Grua para a Etérea é dirigida a Rubi Amarelo, ilustradora e licenciada em Design Gráfico pela ESAD, nas Caldas da Rainha. O seu traço singular, os temas e abordagens ao corpo feminino diferenciam-na de muitos pares dentro do meio. Para além da ilustração nos mais variados suportes, Rubi trabalha também o barro transformando o seu imaginário em três dimensões.

Rubi Amarelo é convidada a estrear a categoria de entrevistas desta nova plataforma pois tem vindo a acompanhar a Grua desde o seu início, tendo participado na primeira edição da Feira de Ilustração que teve lugar na Mouraria no dia 27 de Maio de 2017. Perto de voltar, em 2020, Rubi Amarelo foi também a artista convidada a desenhar o cartaz para a segunda edição deste evento que não resistiu – como todos os outros – à pandemia no início de Março. Agora, Rubi volta para falar um pouco de si e do seu trabalho, do seu percurso e do que a entusiasma criativamente.

• Podes conhecer mais do seu trabalho através do Behance, Instagram ou Facebook.

Conta-nos um pouco sobre o teu percurso. Quando e como iniciou a tua inclinação para a ilustração e para as artes visuais?
• Desde pequenina! A melhor maneira de me entreter foi sempre estando rodeada de cores, tintas e tudo o que pudesse dar uma nova vida, desde criar instrumentos a passar horas a colorir livros e a copiar os desenhos. O segredo foi nunca parar. 

Apesar de não ser uma pergunta de resposta fácil, consegues explicar como desenvolveste a tua individualidade estilisticamente? Traço, cores, temas abordados…
• Bem, nas minhas ilustrações passo sempre muito de mim. É um momento de entrega. Com isso, as cores vivas e os motivos florais e da natureza aliam-se à magia do corpo feminino, são linhas que se unem e que me movem. É quase um encontro entre o ingénuo e o real.

Como tens conseguido conciliar a Rubi Amarelo com outras questões da tua vida pessoal e/ou profissional? 
• Com a vontade de querer mais! Às  vezes formam-se barreiras que parecem um quebra-cabeças. Com um part-time para conciliar e um estúdio (que é o meu quarto), nem sempre é fácil. Quando isso acontece tento abstrair-me ao máximo, e um passeio resolve sempre. A hora certa há-de chegar. E o pensamento positivo precisa de estar sempre presente!

Existem artistas que podes nomear como tuas principais influências? 
• São imensos! São muitas as referências. Mas os primeiros, Matisse, Gauguin … Sou péssima com nomes, e atualmente há muita coisa boa a ser feita, cá e lá fora. Tudo acaba por ser uma referência a partir do momento que acordamos.

Já te surgiu algum projecto de colaboração multidisciplinar, de aliar as artes visuais à música, à dança, ao cinema, por exemplo? Terias interesse ou já foi uma ideia que te passou pela cabeça?
• Já ilustrei alguns livros, uns editados outros à espera do momento certo. E é algo que adoro fazer, principalmente infantis! Adoro crianças e poder intervir na educação e no fomentar das ideias que criam, não podia ser mais gratificante e inspirador. Por outro lado, o mundo da moda e da fotografia são vertentes que me apaixonam mais de dia para dia.

Qual seria a tua colaboração de sonho?
• Acho que tenho varias!! Gosto de experimentar coisas novas e tenho muitas áreas em que gostava de trabalhar. Um mural? Uma colecção de roupa com as minhas ilustrações e ideias?  Provavelmente são estas as que andam mais nos meus pensamentos, mas existem muitas outras, com trabalho e sentimento qualquer colaboração pode ser e será boa.

És muito individualista com a tua criação, ou é-te costume pedir feedback e opiniões durante todo o processo?
• No momento da criação da ideia final preciso do meu espaço, fico isolada, preciso de ficar só, comigo mesma. Não consigo explicar. Depois disso, gosto sempre de pedir opiniões, perceber o que transmite e debater. 

Esta fase que estamos actualmente a viver, é muito complicada para todos os que integram o panorama artístico e cultural. A quarentena tem-nos afectado a um nível que ainda nos parece inimaginável. O que nos podes contar sobre o que tem sido a tua experiência e, fazendo uma viagem ao futuro, como achas que se processará tudo isto culturalmente?
• Não estou completamente de quarentena. Como trabalho a part-time num serviço indispensável ao tele-trabalho, a minha rotina tem sido trabalhar dia sim dia não. A logística inicialmente estava a ser complicada, a rotina era nova e os hábitos tinham de ser outros. Sou uma pessoa que por norma não consegue estar muito tempo em sítios fechados, acaba por ser um sufoco! Mas têm sido bastante positivos, estes dias, no sentido em que tenho criado imenso e estou a voltar a materiais antigos em busca de novas ideias e vontades. Foi o meu mecanismo de defesa, já que, como já tinha dito, o melhor momento de trabalho é sozinha. E partilho a casa com mais pessoas, amigos, que sem eles isto seria bem menos positivo. Acredito que com força e ânimo tudo possa melhorar e todos juntos do mesmo lado conseguiremos erguer de novo o bom que temos.